Não quero falar com Deus

Guimarães Rosa sugeriu a Deus que se ele quisesse aparecer por aqui, que viesse armado. Clarice Lispector já aconselhou que ele chegasse desarmado. Tenho cá para mim que Deus nunca deveria dar as caras no planeta. Por que nem ele iria acreditar no que anda acontecendo.

Se Deus insistir e desconfiar de conselhos gratuitos, nem pense em se instalar em qualquer favela, a menos que queira colecionar balas perdidas. Corre o risco de se envolver, em lá estando, com aquele exército que não usa uniforme e que disputa espaço com aquele outro exército uniformizado. De um lado se recrutam crianças que carregam na mão esquerda uma pipa e na direita uma arma de peso e ofensiva bélica maior que o físico suporta. Do outro lado, quem for pego, culpado ou inocente, se escapar da morte em pouco tempo está de volta às fileiras dos sem uniforme. A falha deve estar nessa tal de humanidade e que me esclareçam o que significa “direitos humanos”…

Pode até morar em edifícios ou condomínios de luxo. Mas cuidado quando sair ou entrar de carro, tem uma porção de gente querendo fazer distribuição de renda se apropriando dos bens dos que trabalham honestamente. Não dá para considerar, ainda, que os praticantes de furto ou latrocínio sejam inscritos em qualquer categoria profissional reconhecida. Ainda não, mas não há quem possa duvidar que daqui a pouco o governo invista nesse contingente para engrossar a arrecadação de impostos.

Se quiser se deslocar de bicicleta não esqueça a armadura. Se for caminhando, “perdeu” seja lá o que tiver. Pegar ônibus não vai prestar, corre o risco de ser assaltado (desde a tarifa cobrada) e ter que voltar a pé exposto a perder o que sobrou: a vida. Poderia sugerir os deslocamentos aéreos mas já se está atirando aviões em belos cenários de difícil acesso. Faltou o trem. Faltou mesmo, ou enguiçou em qualquer ponto, ou foi depredado pela revolta dos que esperam e nunca o alcançam. Automóvel? Mas quem vai conseguir pagar o combustível?

Nem pense em ficar doente! Mas também não me pergunte como é que se faz para se ter uma alimentação balanceada com o preço da cesta básica que mal dá para a semana da família. Vai lá naquela padaria sem nome e pede aquele salgadinho encharcado de gordura com direito a um refresco do dia: é tanta gordura que vai se sentir alimentado o dia inteiro. Também pode recorrer às bebidas alcoólicas batizadas com metanol que em doses módicas vão lhe prover de energia do café da manhã ao jantar, que não acontecem. Mas se todas as artimanhas falharem e a saúde for para a cucuia, lhe desejo boa sorte! Precisa mesmo ser uma espécie qualquer de divindade para se arrastar até um Hospital ou até qualquer Unidade de Pronto Atendimento e esperar mais de doze horas por um atendimento que nem Você sabe se vai acontecer. Pois é, se cuide porque saúde perdida não vai ser encontrada nesses tantos aparelhos oficiais de saúde com sotaque caribenho.

E te digo mais: se escolher vir como professor vai ter muita dor de cabeça. E não me refiro àquelas dos confrontos com a polícia nas inúmeras manifestações por salário e condições de trabalho. É que professor hoje em dia além de transmitir conhecimento tem que educar as crianças porque os pais andam muito ausentes tentando ganhar o “pão” de cada dia. Sobrou para o “tio” ou para a “tia” transmitir valores que nem sempre se afinam com os exemplos que os pais oferecem aos filhos.

Não quero influenciar na sua decisão, mas do jeito que a coisa anda ser ateu é quase uma distinta referência de qualidade humana. Em seu nome as barbaridades são cometidas com requintes tais que superam todo o histórico que as religiões promoveram até bem poucos séculos atrás. Não sobrou nenhuma reserva daquele “amor” que todas as doutrinas evocam. Cá entre nós, muitas coisas inadmissíveis são justificadas em seu nome… Isto sem falar no incompreensível “Deus ajuda” que é a expressão absoluta da incapacidade de resolver os próprios problemas, delegando aos poderes tidos supremos a resolução para tudo que a falência da auto-estima já não pode mais administrar.

Portanto, recomendo não aparecer por aqui. Mas se vier, lembre-se que precisamos de imagem e semelhança…

5 Comentários até agora.

  1. Renato Menezes disse:

    Muito bom! Um texto pleno de ironia! Só que, no primeiro parágrafo, parece se referir ao planeta Terra de um modo geral – mas, ao longo do texto, descreve as agruras muito particulares de um certo país, bem nosso conhecido… Que Deus nos acuda!

  2. Mônica Barros disse:

    Um retrato real e irônico do que vivemos! Se Deus viesse veria tudo isso e muito mais… muito mais maldades e inconsequências… Mas Deus, que tudo vê, veria além do sofrimento, a solidariedade, a amizade, o amor, o talento e a indignação de cada um…

  3. Carlota disse:

    Muito atual este texto, relata a realidade do momento, DEUS não quer falar mais com ninguém e se possível fosse estaria profundamente arrependido da criação do planeta Terra , deste nosso país e da raça humana.

  4. Monique disse:

    É… o sentimento diário tem sido esse mesmo…devastador e desesperançado, pra todos com quem converso.

    Tempos muiiiiiito difíceis!!!

  5. Lívia Gomes disse:

    Sim, imagem e semelhança está em falta.
    Salve-se quem puder!
    Beijocas com saudade