Lugar Nenhum

O nariz sangrava. Rosto, peito, pernas, braços, pés… Ele, inteiro, uma dolorida existência que por mais que indesejada, se impunha ao sentimento. O seu corpo um dicionário para todas as variantes de incomodo. Assim simples. Assim cruel. Lembrou, enquanto se apoiava nas pedras que muravam aquela arquitetura majestosa, que havia passado por um modesto café no quarteirão anterior. O frio ajudava a estancar o sangue. Estava andando desde o início da tarde, depois veio a noite e agora a madrugada. Apenas o tempo derretendo as horas, desmanchando a vida. Precisava de um café. Ao menos um café, já que banho e cama quente eram lembranças tão confusas quanto insistentes.

Tudo ia bem até começar a se configurar pelo avesso. Nada extraordinário se entendermos a realidade como algo de provisório sem validade determinada. Viver é apenas uma imposição das circunstâncias, não importa o grau de controle dedicado ao alcance de um objetivo. As estações mudam. O tempo escorre. As relações vão se tornando flácidas na mesma proporção em que as exigências se fortalecem. Um dia, além de não aceitar qualquer espécie de assédio moral, resolveu denunciar. Mexer com o poder faz muito mal à saúde… um nariz sangrando era a prova incontestável… Aceitou as consequências só porque a indignação ocupou todos os espaços, sobretudo aqueles onde o medo se confundia com prudência. Não sei se o nome disso é absoluta aceitação de si mesmo. Talvez seja menos digno e traduz-se na conclusão do “não ter mais nada a perder”.

Disse não. E naquela ocasião ignorava que a negativa iria varrer a sua vida para longe de tudo. Havia uma recusa, entre o heróico e o ridículo, de não se sujeitar a servir poderosas incompetências que apesar de criminosas descansavam no convencimento da impunidade. Processos corrompidos, editais fraudados, privilégios para afilhados, regalias para os partidários e, para alinhavo de tantas contravenções, a imposição, aos funcionários, de condutas desviantes. A decisão de não mais funcionar assim veio com a naturalidade de saber que não havia outro caminho se quisesse manter o respeito por si mesmo. E a cada ordem de como proceder, ele contra argumentava apontando os efeitos que tais ordens promoveriam e quais as normas administrativas que seriam infringidas. Não agradou em nada o poder. Sobretudo quando, servil, oferecia a alternativa de acatar os comandos desde que os superiores assinassem por ele o trabalho que não concordava em executar. Além de desagradável ele começava a ser identificado como conspirador. Passou a importunar tanto que um dia foi chamado ao Gabinete Supremo onde um dos asseclas o indagou sobre o fato de se recusar a cumprir ordens. Ele assentiu com um sorriso premonitório de que a sentença estava por ser decretada. O Secretário de Gabinete então se disse obrigado a rescindir o contrato. Permaneceu na empresa o tempo necessário para reunir seus poucos pertences pessoais que sobravam dentro de uma caixa de sapatos. Seu computador havia sido bloqueado no intervalo de tempo que ele precisou para sair do Gabinete Supremo e chegar à sua baia de trabalho. Ele ainda conseguiu, mesmo atordoado, avaliar que eles sabiam ser competentes, mesmo que na direção errada… Seus colegas de trabalho assistiram a tudo em silencio. Sabia quantos se alegravam por não tê-lo mais por perto, como se fosse possível afastar a consciência que ele simbolizava com muito peso; também sabia que alguns sentiam o desconforto da injustiça com relação àquela demissão, mas tinham família e outras alegações para preservarem o emprego; deixava para trás aqueles outros colegas que reprovavam com algum desprezo a atitude dele em ir contra os plantonistas do poder. Existe gente para tudo e ele era apenas um tudo que cabe em ser gente…

O seu contrato não previa qualquer tipo de indenização, mas como era sozinho e nutria aversão por compensações consumistas, conseguiu reservar boa quantidade de dinheiro que o habilitava a viver por um ano, caso nenhum incidente se interpusesse no curso e discurso de sua vida. No primeiro mês, desempregado se dedicou a analisar o mercado e a distribuir currículo para conhecidos e poucos desconhecidos. No segundo mês, o critério seletivo não comportava tantas exigências. Do terceiro ao sétimo meses, valia qualquer trabalho, do intelectual ao braçal, desde que garantisse a sua sobrevivência. O diferencial da sua qualificação (ou desqualificação) era aquela tendência que sempre o perseguiu de ser um especialista das generalidades e, neste caso, saber um pouco de quase tudo lhe era muito lúdico, mas nada funcional. Se divertia tirando conclusões próprias sobre determinados assuntos e não dava importância quando apontavam que as suas descobertas já eram, na grande maioria, de domínio público e patenteadas por esse ou aquele autor.  Foi no oitavo mês que ele se deu conta que um país economicamente destroçado sangra em duas partes: a primeira, evidencia o êxodo imediato dos mais abastados que reorganizam as suas vidas em terras de idioma estrangeiro; e, a segunda parte, a mais visceral, é quando a desesperança passa a ser cardápio único da grande maioria dos que permanecem quando as oportunidades desaparecem…

Levou algumas semanas acompanhando os noticiários. Percebeu com muita clareza que o desespero percorre dois caminhos socialmente bem definidos: ou a depressão profunda ou a violência progressiva. O desespero coletivo é inevitável todas as vezes em que não é mais possível disfarçar a falha na cadeia dos escalões do poder. E a pior crise nunca é as que estão relatadas nos muitos estudos analíticos, sejam econômicos, políticos ou sociais. A pior crise é aquela que cada um vivencia a sua maneira e na medida das suas privações e temores. Foram semanas de alta intoxicação com manchetes apontando a falência dos aparelhos públicos e a assustadora recessão devorando salários e empregos. Começou a se deter nas notícias de acidentes suspeitos. Aqueles em que grades de proteção se desprendem e pessoas despencam de andares elevados; ou atropelamentos em que os motoristas insistem em afirmar que “do nada” surgiu aquela pessoa na frente do seu carro; ou aqueles tombos fatais e inexplicáveis em que pessoas se veem caídas nos trilhos minutos antes dos trens chegarem nas estações quase vazias de passageiros. Acidentes com tintas de suicídio ganhavam espaço no crescente índice de mortes que se acumulavam num período curto de tempo. A faixa etária dessas pessoas estava compreendida num intervalo de quarenta a sessenta anos, um pouco menos, um pouco mais. Aprofundando outras características, verificou que os “acidentados” estavam afastados do trabalho por aposentadoria, invalidez ou demissão, e que até bem antes dos acidentes eram eles quem sustentavam suas famílias… Um outro fascículo do caos foi constatar a frequência ascendente de crimes praticados por jovens adolescentes. Muitas vidas interrompidas no susto de uma pedalada, num ônibus menos lotado, num ganho de cem reais, num tênis usado… vidas tão baratinhas quando comparadas à inveja ou à necessidade de sustentar vícios… A violência quando interage com o DNA da miséria explode numa irreconhecível humanidade. O levantamento de informações traçou alguns perfis tão assustadores quanto reais: jovens expulsos das salas de aula ou mesmo que as tenham abandonado por interesses outros; pais – ou apenas mãe – trabalhando o dia inteiro sem tempo de cuidar dos filhos que se fazem órfãos na sobrevivência e expatriados da moral; a grande maioria recrutada pelos xerifes do tráfego; pai/mãe que de um dia para o outro recrudesceram na intolerância, na impaciência, e despejam nos filhos suas frustrações, suas amarguras, com os carnês de crediários exigindo pagamentos que nunca se concretizam; adolescentes que empoderados pela menor idade debocham das leis e menosprezam qualquer figura de autoridade. Tudo isso alimentado pela incompetência e ganância de poucos que manipulam o público submetendo-o a seus interesses privados. Governabilidade é um bastão que se reveza de escândalo em escândalo na sucessão do poder.

Foi no nono mês, que, desempregado e desesperançado, revirando seus pertences, encontrou o seu passaporte. Assim válido. Assim convidativo. Assim aventureiro. Pagou à vista e com grande desconto a passagem para Paris. O raciocínio foi simples: se era inviável viver no país onde nasceu, preferiu perder aqueles conceitos utópicos de dignidade – que só existem nas cartografias humanistas financiadas para a pacificação coletiva -  em terra distante. Se for para morrer que seja em Paris, com um nariz sangrando, sem lar, sem sonhos, desejando um café presumível na distância de um quarteirão…

3 Comentários até agora.

  1. renato menezes disse:

    Trágico e tão verdadeiro… Tão igual a circunstâncias que nós todos, ao menos os mais lidos e esclarecidos, conhecemos… Parece, infelizmente, não haver esperança, nem mesmo alhures, nem mesmo em Paris, para as pessoas corretas e dignas. Apresenta, assim, um pessimismo gritante – fruto, talvez, da convivência diária com determinadas situações. Reflete um cansaço aparentemente irremediável. Nem uma nota, por menor que seja, de otimismo… A não ser que fossemos ignorantes, que fossemos todos como a «velhinha de Taubaté».

  2. Tania disse:

    Contundente. Nocaute. bjs

  3. Jandiara disse:

    E, no final, sempre haverá Paris. (Até para a desilusão). Bjs