Escreve que passa…

São ásperas as mãos… embora ainda escrevam. Por serem ásperas, definitivos os calos e o inchaço. As articulações dos dedos emperram de vez em quando. Tudo isto porque as palavras precisam ser lapidadas, ou então capturadas numa constante luta contra a renúncia, até conseguirem revelar novos sentidos por entre sentimentos adormecidos. Existem situações em que as mãos tremem e não conseguem reter as palavras que seguem indiferentes ao esforço de quem as procura. Corri todos os riscos na recusa de enluvar as mãos ao toque das palavras.

São embaçados os olhos… mas ainda enxergam. Por serem demais exigidos, lentes corretivas, graduadas ano a ano, confirmam que o olhar precisa de contínuos ajustes. Isto porque a visão de mundo intercala necessidades: às vezes manter a distância é prudente, outras vezes a proximidade é urgente. Para além disso as variações de ângulos em conformidade com as perspectivas multiplicam possibilidades. Assim é possível aprender que a dimensão da realidade ultrapassa tudo que se oferece aos olhos. E quem escreve é um eterno sobrevivente de periódicos naufrágios visionários.

É intrincado o cérebro, mas ainda consegue algum desempenho cognitivo. A depender da idade, que promove ou remove lembranças e pensamentos, a lógica associativa se realiza nas vezes em que a alma se rende ao silencio de um suspiro. O cérebro, do seu jeito insondável, acompanha a flacidez dos músculos, envelhecendo lentamente, espalhando pelo Impossível os obsoletos desejos, as improváveis expectativas, as presunçosas capacidades, a desgastada auto-imagem. Assim, e talvez somente assim, seja possível reinventar-se observando o presumível estilo que diz respeito a cada um. Aprendi tanto rindo e chorando com os meus reconhecidos enganos… Primeiro foram as incontáveis bolas de papel-amassado arremessadas nas lixeiras. Depois vieram arquivos inteiros deletados da máquina organizadora de vidas. Há muito tempo não uso apontador de lápis nem as tintas coloridas para as minhas canetas-tinteiro. Os dias nascem com tanta delicadeza, com tanto encantamento, que nem nos damos conta das coisas que mudam de lado e passam a existir na inutilidade. Será que mudam realmente de lado? Ou somos nós que ainda não identificamos em que lado estamos? Muitas expressões são modismos e desaparecem com a rapidez renovada da modernidade. Algumas expressões para permanecerem atemporais são alcançadas com muita dificuldade; outras, para envolverem os leitores a qualquer tempo, são ainda mais difíceis… E quem escreve é um eterno refém do paladar de quem o lê.

Que a eternidade perdoe todos os escritores! Eles apenas se publicam porque não sabem lidar com os próprios sentimentos. Suas dores, suas dimensões óticas, suas revelações… são transgressões insuportáveis do recolhimento que ao rasgarem o silencio das ideias se atiram no precipício crítico. E lá vão os textos suplicando a cumplicidade do leitor. E lá vão os textos implorando companhia, entendimento, afeto, até mesmo a misericórdia do reconhecimento.  E o escritor, para sempre e cada vez mais solitário, recolhe as migalhas que sobram do tempo e põe em cena versões e aversões de si mesmo.

A solidão me escreve…

Um Comentário até agora.

  1. Tania disse:

    A batalha com as palavras traz vitórias ao escritor. Se não a vitória de laureamentos, aquela que concilia temporariamente mente, coração e mãos. Beijo.