Então, foi 2015…

Querido Amigo,

Acabei de conferir o resultado da MegaSena! Aquela recauchutagem geral no Jeep; aquela pintura na casa; aquela construção da horta; aquelas dívidas todas quitadas; aquelas viagens para rever a família; aquele tempo para reencontrar os amigos; aquele vestibular de Direito para os fatos se reverterem em lições de latim… Só que não! Uma das sínteses de 2015 cabe bem na plenitude do conjunto desses sentimentos que se contradizem num único ato: “Só que não!”

Um ano difícil? Olha, difícil mesmo é essa insegurança projetada para os tempos que virão. E acredite, tempos virão! As incertezas vencidas no dia a dia são aspirações contabilizadas para quando for possível estabilizá-las. Aprendemos que a respiração deve ser mantida a um determinado compasso para impedir que tudo desande de vez. Este 2015 serviu para confirmar que a esperança é resiliência absoluta da alma quando esta se devota à superação. Não existe maior teimosia que as manifestações da alma, sejam nos atalhos da depressão sejam na repaginação da confiança. No primeiro caso engrossam os segredos das estatísticas de suicídio; na segunda alternativa ela se entope de frustrações, decepções, impossibilidades, e se mantém agarrada nas paredes da vida porque é um dia de cada vez e amanhã a nossa jangada estará abarrotada de pescado numa maré diferenciada.

Entendo que a cada ano fica mais fina a camada entre o teto que me cobre e as nuvens que suavizam os seus passos. Esta constatação tem duas medidas: a minha energia que sem a menor elasticidade se restringe às pequenas expressões de vitalidade paulatinamente diminuídas; e a exuberância incansável do tempo equalizando em lágrimas os encontros e as despedidas, alternando a saudade esculpida na memória com os pequenos seres que inauguram a modernidade de novas convivências. Uma ciranda interminável, que seguirá evolutivamente para além de cada um de nós. Se assim não fosse eu não estaria daqui escrevendo para você aí. Estamos cada vez mais próximos, quase “juntos e misturados”.

Vamos resumir o estado da arte desse alarmante, embora nada surpreendente, ano de 2015. Já tínhamos sinais que a economia e a política iriam para o buraco – ou abismo – numa bizarra capilaridade espraiada pelo poder: corrupção, incompetência, supremacia dos interesses privados em detrimento das necessidades públicas… Enfim, uma série incalculável de efeitos corrosivos interferindo na sobrevivência da população. Essas questões técnicas de governança caberá ao país alcançar uma Educação de nível para disponibilizar profissionais eficazes a serviço das funções que vierem a exercer. Ou que se esgotem as forças maléficas atuantes para que se estabeleça uma rota promissora. Mas o que realmente assusta neste contexto são as inclinações sociais que em larga escala se deterioram numa série de episódios facilmente diagnosticados: retrocesso civilizatório. A situação nos coloca frente à frente com a barbárie e não se trata de uma conclusão intuitiva ou reflexiva, simplesmente somos convencidos diariamente que as atitudes selvagens ditam regras coletivas. Certamente este foi um ano de muita, muita violência. Violentos ataques. Violentas defesas. Somos um país de seres acuados na sensação de impotência e as consequências deverão ocupar volumes inumeráveis de cunho sociológico na tentativa de compreender uma década que alcança neste ano o seu meio termo. Enquanto isto o medo, na ferocidade com que convulsiona os instintos, promove solitárias legiões infestadas de bandidos e de heróis, todos encurralados pela ausência do bom senso. Posso explicar muitos comportamentos absurdos, embora não consiga torná-los justificáveis enquanto efeitos na coletividade. Aprendi com o tempo, com os meus erros, com os meus equívocos, que não se pode considerar reação qualquer atitude afetada pelo sentimento daquilo com o qual não concordamos. Reagir de forma revolucionária talvez seja preservarmos a fidelidade aos nossos princípios, mantermos a serenidade e a fraternidade nos nossos corações.  Apesar de tudo, independente do medo e das incertezas que tentam engrossar a circulação do sangue no meu corpo, mantenho as minhas portas e janelas abertas; cuido, na medida do possível, para que as árvores tragam os frutos que serão distribuídos a quem os quiser; escolho as palavras que levem algum conforto meio a tantas desolações; desvio as minhas energias e as entrego aos santos para que eles cuidem de tudo que a minha ignorância guarda na prateleira do impossível. É só mais um ano vencido com alegrias e dificuldades na bagagem que levamos da vida. Chegar ao final é um alívio e uma medida de resistência que envaidece ter sobrevivido à coleção dos anos disponibilizados aos meus propósitos. Valeu! Sempre vale! O cansaço a gente esquece num piscar de olhos quando boas notícias chegam na umidade tão necessária aos nossos sorrisos, mesmo tímidos.

Pois é meu Amigo, pouco importa se neste Natal não será possível tantas luzes enfeitando as casas; pouco importa se ao redor da árvore serão minguados os presentes disponíveis; pouco importa se a fartura da mesa terá a medida da recessão no país… O que conta é  essa louca fagulha de esperança que inauguro todos os finais de ano quando concentro minha atenção e saudade na sua direção. O que conta é conseguir preservar a delicadeza do amor desejando que o bem se espalhe, se derramando com suavidade, transformando ou resguardando a serenidade capaz de converter o mundo num espaço melhor para esteio das realizações dos muitos que nos sucederão. É só mais um ano, tá vendo? Persiste a reinvenção da felicidade nos espaços possíveis das circunstâncias…

Até sempre!

4 Comentários até agora.

  1. Tania disse:

    Doce e eterna amiga. Que não te falte nunca, apesar da escuridão desse tempo sombrio, a fagulha que lanças nas palavras e nos renova a esperança de melhores ventos. Obrigada, sempre. Beijo.

  2. Mônica Barros Coutinho disse:

    Emociona… Uma luta para manter a esperança, aprender com nossos próprios erros, numa realidade tão difícil… E ter você compartilhando a esperança e alegria, apesar dos pesares, é muito bom!

  3. Tania disse:

    Foi mesmo difícil esse 2016. Mas, mesmo que faltem palavras para dele nos despedirmos, que nos fique uma brasa, pequeno alento para, quem sabe, romper a escuridão com renovada chama de novos ventos. Beijo

  4. Vera Menezes disse:

    Foi custoso demais amiga, mas consegui algumas palavras