Aspas para sempre abertas

Não, não é que meus olhos estejam voltados para trás. É mais que isso: é o meu corpo, passo a passo, fazendo o caminho de volta, por estradas nem sempre as mais desejadas mas que me permitiram reconhecer, muito depois, que de estações em estações havia uma espécie de planejamento que atravessava todas as minhas idades com uma firmeza de despropósito assustadora.

É uma sensação de não pertencimento, quaisquer que tenham sido os escalões da modernidade que me intimidaram, que me desafiaram. Textos alheios nos quais nunca me reconheci. Aspas douradas, brilhantes, mas e daí? Nelas nada de mim. Mas segui, atirada e atirando, por entre, de frente, passando por sonhos, delírios, plasticidades, coerências, aventuras, desventuras…. nunca me encostei na realidade. Mas dela quem precisa? Talvez ela seja uma exclusiva serventia do tempo, e nada mais.

Assim, mantendo o meu olhar naquela linha chamada horizonte, lá na frente, mas andando para trás e sem pressa, vou costurando as cenas vividas. Nelas muitos outros detalhes além daqueles de quando acontecidos. Não que eu tenha por objetivo chegar a qualquer conclusão, afinal cada movimento determinado pela respiração é conclusivo por si só. O que me entretém são os traços sutis desse painel exclusivo da minha vida, repleto de fatos, acontecimentos, instantes de piscar os olhos, lentas tardes escorrendo cores delicadas, nuvens, névoas, mato, grama, frutos, pássaros, olhares desviados, motores acelerados… traços finos, gestos de ocasião…. uma colcha de retalhos sob a qual se expande e se contrai uma pessoa inconclusiva que ao espelho apenas me delata, sem nenhuma revelação.

O que mais me interessa e me faz sorrir é constatar  as voltas tantas, pelo mar, pelo ar, até chegar num pedaço de terra e me fincar na natureza, meio bicho, meio planta, meio árvore. O sal da terra a partir da minha enxada capinando os dias, nem sempre bons, nem sempre férteis, vai de pouco em pouco levando à exaustão angústias, preocupações, as estagnações políticas, a bancarrota econômica, os declínios das mais variáveis bases. Um dia de cada vez, sem possibilidade de descansar no sétimo, e continuando após trezentos e sessenta e cinco deles. Sempre avante! Mesmo que nesses controvertidos tempos avançar tenha por delicadeza arejar as roupas do passado e quarar antigas esperanças, sem pretender nada mais que um cheiro de alfazema nos travesseiros que protegem os meus sonhos.

No quintal um jeitinho a mais sempre é possível, uma florzinha nova, um pássaro de primeiro canto, um espaço aproveitável à semeadura, uma erva, um tempero, os frutos que serão de dozes sabores e texturas, distribuídos nos nomes dos meses, cravados no gosto de cada estação… Lá fora o mundo gira, se contorce, perdido dos sentidos…

Por aqui vou deixando outras espécies de aspas abertas,  tudo que atenciosamente me tem sido ditado pela natureza. A certeza de que a possibilidade da colheita chega nos braços fortes do plantio. Para além disso, um horizonte mudo.

6 Comentários até agora.

  1. Jandiara disse:

    Essa contramão é sempre tão serena e gratificante!

  2. kelly disse:

    Parabéns por essa sensibilidade criadora, pelo texto espetacular: presente que enfim seus leitores receberam!
    Espero que tuas aspas não necessitem jamais sofrer o abrupto fechamento exigido pelo momento inacabado do pensar. Tenho certeza que não!, afinal você é detentora de um importante instrumento de reflexão que é a dialética. Espero que a natureza te alimente, mas além disso, te coloque sempre em movimento contínuo de produção. Você escreve muito bem e possuí um talento que transcende as insignias da palavra, você promove acalento; empresta por elas o devido tratamento holístico aos teus leitores.
    Produza mais! Escreva, Vera, escreva.

  3. Brotosaurus disse:

    Sorte de quem possui a “sua” terra e pode compartilhar com ela a sabedoria da natureza!

    Sorte de quem se sente parte da natureza: pode compartilhar ela própria e este sentimento existencial que se renova em ciclos…

    Sorte daqueles que não esperam pelo esplendor da beleza que virá após, e simplesmente existem fazendo a sua parte no conjunto da natureza.

    Sorte e sabedoria daqueles que reconhecem o caminho como forma de realização, no conjunto dos mistérios da natureza, pois redobram a atenção no ato de caminhar.

    Parabéns pelo seu texto pois percebo que nasceram frutos novos no caminho.

  4. Renato disse:

    Parabéns pelo texto e pelo que ele demonstra ter siso alcançado, privilégio de poucos: a serenidade diante da vida, diante do próprio percurso e diante dos acontecimentos que o emolduraram. Nada como se poder alcancar o equilíbrio e se permitir, sempre, manter a esperança, com os olhos postos no futuro a partir da certeza de que o mesmo é construído no dia a dia que reforça o passado.

  5. Mônica Barros Coutinho disse:

    Costurar diferentes momentos vividos, alinhavar as próprias mudanças, colocar em palavras e compartilhar… Como a terra que é semeada e frutifica… Lembro da música “Cio da Terra” sendo usada na hora do ofertório na missa, como esse tema é religioso! E você vivencia esse sentido ao se re-ligar pela natureza! Escrever também é um dom!!! Parabéns pelo texto! Exerça sempre seus dons!!!

  6. Claudia Bernardo disse:

    Que maravilha de texto Vera! Do início ao fim. Li respirando dentro das suas palavras. Sua escrita é um poderoso alimento, uma grande inspiração. Grande beijo!