Uma coisa. Outra também

Algumas situações ainda conseguem impressionar apesar do meu esforço psicológico em admitir que estamos vivendo a era do “tudo é possível”, já que moral e ética atravessaram a rua deixando a civilização em outra calçada. Ou vice-versa.

Meus sobressaltos estão sincronizados com as matérias veiculadas nacionalmente sobre o cidadão que encontrou uma carteira na rua e a retornou ao dono; ou sobre o taxista que devolveu ao passageiro distraído o celular esquecido no carro; ou outras tantas ocorrências que são divulgadas com pompa e orgulho.  Mas péra aí, desde quando introjetamos que o que deveria ser regra passou a ser exceção? Então quer dizer que é extraordinário você não se apropriar do que não é seu? Entendi: o famoso jargão do “levar vantagem em tudo” ganhou o sobrenome de “achado não é roubado”.

Outro dia eu quase me diverti analisando os argumentos de um inquilino pleiteando a manutenção do valor do aluguel sem reajuste. A pessoa se auto avaliava como “bom inquilino” por nunca ter atrasado o aluguel e apontava a recessão como uma aliada para que o valor se mantivesse inalterado. Oi? Cumprir compromissos não sobreleva ninguém a qualquer grau de extraordinário; até onde eu sei é obrigação. Infelizmente lidar com a recessão não é infortúnio de poucos, é uma desgraça bastante democrática, e evocá-la em particular é um sacrilégio para com o coletivo.

Outro dia me ofereci para ajudar a carregar terra para a horta recém construída da minha vizinha. Ríamos do nosso cansaço e tropeços em levar avante uma atividade quase interditada pelas nossas idades, que somadas superam facilmente um século… que horror! Ao final da tarefa, a vizinha não sabia como me agradecer e me batizou de “vizinha comunitária”. Até pensei em corrigi-la com um antipático: “a senhora quer dizer vizinha solidária”. Mas tudo estava tão divertido que nem comunitária nem solidária sobressaíram à contingência de ser apenas vizinha, o que em si implica referência de multiplicidade.

São essas coisas assim que me estremecem. Fica a dúvida soberana sobre a esquisitice: ou eu, ou o mundo, ou tudo junto… Convenhamos, é meio esquisito de tudo a ousadia de viver. Uma tendência psiquiátrica afinada na bipolaridade: ou é bom ou é mau; ou é do bem ou é do mal; ou é rico ou é miserável; ou é coração ou é razão; ou é isto ou é aquilo…. A coerência, a paz, o equilíbrio parece que escapam bem no meio de tantos extremos. Talvez seja isso mesmo: é o tempo de deixar escorrer alguns valores para que a terra os devolva mais suculentos, mais enraizados, mais consumíveis…..

Enquanto isso vou revezando as minhas esquisitices com as esquisitices que testemunho por aí. Mas eu juro que mesmo abraçando muitas das árvores no meu quintal, nunca me apropriei de algo que não fosse meu; mesmo conversando longas horas com os meus cachorros, nunca deixei de ajudar um estranho em situação difícil; mesmo tendo plantado uma árvore para que os frutos só fossem apreciados pelos pássaros, ainda acho que é possível valorizar a condição de sermos vizinhos uns dos outros; mesmo puxando conversa com pessoas que nunca vi antes, ainda acho que deveríamos prestar mais atenção para o que a Genealogia nos comprova: somos todos uma enorme família.

Que a minha família está cheia de gente esquisita, lá isto está…..

4 Comentários até agora.

  1. Tania disse:

    A minha também! rsrsr… somos todos inquilinos no mundo, querida. Amei o texto. Beijo

  2. Renato Menezes disse:

    Uma constatação bem humorada dos tempos difíceis pelo quais estamos passando, onde os valores estão confusos (apesar da bipolaridade dos extremos detectada) e onde o «cinza» do equlíbrio e da serenidade parece perdido na teia do tempo.
    Chamou-me a atenção, em particular, o episódio sobre o inquilino… Et pour cause!
    É mesmo para ficarmos estarrecidos – ao menos aqueles que ainda nos acreditamos minimamente lúcidos – e pronunciarmos, de forma enfática, a interjeição que denota espanto, estranheza e incredulidade: «UÉ…!?».

  3. Lurdes disse:

    Adorei. A triste realidade nos dias de hoje. Os valores que deveriam ser os correctos, passaram a ser excepção. Felizmente ainda existem pessoas a fazer a diferença para que esses valores não se percam. Adorei.

  4. kelly disse:

    Não vejo necessidade de questionar o que as pessoas em suas singularidades ou suas responsabilidades – perdidas na mistica do estado regulador, e tendo que se haver consigo mesmas frente os borrões éticos que corrompem em prol do si próprio – fazem para garantir a fantasia de autonomia e controle em favor de si; mas, sim, quero parabeniza-la por compartilhares conosco suas intimas sensações que nos trazem reflexões.
    Este espaço estava angustiado a espera de uma palavra sua, de uma dessas estórias que nos trazem temas tão urgentes e próximos à reflexão. Que tenhas mais dias solidários ou comunitários/cooperativistas para relatar e trocar conosco suas criticas aos dias atuais, as minucias do compartilhar o dia-a-dia com a ilusão de que seja somente meu/minha a situação; como se não fossemos todos interligados-interagentes-intersubjetivos.
    Aguardo ansiosa tuas novas reflexões, e no sentido de cooperativa-solidária-comunitária (eu e o(s) outro(s) – nós) espero ler aqui a reflexão dos gêmeos, tão iguais e diferentes ao mesmo tempo, que tive a oportunidade de le-lo. Quero rele-lo e garantir a troca com todxs que aqui buscam essa troca de sentir a vida. Obrigada.