Para não esquecer os vaga-lumes

Meu caro,

Pois é… Meu amigo seria impossível listar os acontecimentos que fizeram a escuridão de 2016. Inútil descrever o pavor desses tempos, porque superou todos os parâmetros da perversidade, seja no privado seja no público. A morte estendeu o tapete para reverenciar a multiplicidade dos contornos e formas do irracional. A barbárie foi habilidosamente esculpida dia a dia com uma determinação e perseverança estonteantes. Mais tarde os historiadores decifrarão motivos e escolherão a palavra emblemática, ao preço de muitos comprimidos inibidores de náuseas, que registrará o terror desses tempos no seu cruel passo a passo. Cada um de nós guardará as imagens mais expressivas dos escombros da nossa civilização em franco retrocesso. Certamente não esqueceremos nenhuma delas…

Mas não podemos duvidar que somente na escuridão somos capazes de perceber o encantamento que nos permitem os vaga-lumes. Eles se fizeram visíveis em 2016 quando tudo parecia sem direção. Vieram em bando enfrentando mares revoltos desprovidos de faróis e bóias. Inundaram de alegria os corações porque crianças nasceram do amor de pais dedicados. Bailaram reivindicando um sorriso quando as angústias pareciam não ter fim. Aconteceram os vaga-lumes nos sorrisos gratuitos que nos dirigiram alguns desconhecidos, sem motivo aparente. Aconteceram os vaga-lumes nas flores que desprezaram a primavera e nos deram um susto de cores antecipadas. Aconteceram os vaga-lumes na resiliência que nem imaginávamos capazes. Aconteceram os vaga-lumes no suor das grandes empreitadas nem sempre agarradas ao sucesso. Ah, esses vaga-lumes, minúsculos, frágeis, a mercê de tantos predadores, iluminaram os nossos corações quando mais sombrios nos consumiam os sentimentos.

A corrupção devastou as nossas vidas com um exagero proporcional à ganância de poucos que, não duvido, são capazes de repetir os feitos na menor oportunidade. Enfrentaremos alguns muitos anos na tentativa de nos recompormos, de nos aprumarmos, de sentirmos orgulho, como nunca antes, do povo que um dia poderemos ser. Chegamos ao final do ano com uma respiração cansada, com a perspectiva remendada, mas talvez tenhamos entendido que esperança exige que tenhamos um plano de trabalho detalhado para fazer com que as coisas aconteçam, ao contrário de ficarmos olhando pro céu “esperando” que a realidade mude com a interseção impossível dos planos astrais distintos.

Cansaço, meu caro, muito cansaço…. Só peço a mim mesma que nada usurpe a minha capacidade de louvar o que deve ser louvado. A começar com o reconhecimento de que vaga-lumes só acontecem quando plena a escuridão.

Com um pouco de sorte, até o ano que vem….

Saudades,

Vera Cristina Menezes

 

4 Comentários até agora.

  1. Diderot Lopes disse:

    Olha! Você consegui se superar! Lindo o seu texto.

  2. renato menezes disse:

    O otimismo consegue vencer o pessimismo! As esperanças conseguem se manter apesar das inúmeras dificuldades! A força que leva adinte consegue superar os obstáculos! Excelente, porque é disso que precisamos – otimismo, esperança e força – para não nos deixarmos abater e encontrarmos soluções para um futuro que, sempre, esperamos seja melhor.

  3. Tania disse:

    Querida amiga, me junto a vc nos votos de que não nos esqueçamos de buscar os vaga-lumes que insistem em brilhar para os que têm olhos para enxergá-los. Sob forma de bicho e também de gente que brilha em nossa trajetória. Elevo os olhos para um tilintar diferente no céu do Rio. Obrigada. Beijo

  4. Mônica Barros disse:

    Seu texto me fez lembrar da música do Ivan Lins, também composta em tempos difíceis… “No novo tempo apesar dos castigos… Estamos mais vivos, pra nos socorrer… Para que nossa esperança seja mais que vingança, seja um caminho que se deixa de herança…” Que possamos enxergar sempre os vagalumes na escuridão e não esquecer que mesmo sem perceber, podemos ser também…