Na Conta do Final de Ano

passagens

Faz tempo que a cada final de ano eu escrevia alguma coisa – espécie de retrospectiva emotiva – para os amigos, tentando dizer de alguma forma o que o velho (e muitas vezes cansativo) ano me deixava de legado. Com o tempo, ficava esperando um único amigo bater na porta e cobrar a despedida. Depois que tive que me despedir desse amigo, a motivação não se armou de entusiasmo e as palavras ficaram arrastadas e, naturalmente, as abandonei assim como o ritual.

Hoje uma amiga (obrigada Tâninha) compartilhou um artigo que gostei muito – e gostar muito significa: “pena que não o escrevi…” – e me ocorreu de transcrevê-lo para apreciação, contestação,  reflexão para esse ano que vai e o outro que vem…. Espero que gostem.

PASSAGENS

As flores costumam durar poucos dias, um espetáculo dura umas duas horas. Duramos entre um dia e outro, entre um mês e outro, entre os nossos afazeres e compromissos. Duramos entre nosso nascimento e nossa morte.

O tempo é nossa condição de vida. Diz o filósofo alemão Martin Heidegger: o homem não tem tempo, ele é um tempo que se esgota, se emprega, se consome. Por isso, contabilizamos a vida entre antes, agora e depois, entre passado, presente e futuro,  entre o logo mais, o há pouco, o neste instante.

O interessante é que o tempo é tão presente e imediato que nem o percebemos. E, em épocas de passagens tão convencionais, como o fim de ano, essa consciência parece vir à tona.

Reclamamos por não conseguirmos terminar a tempo nossos afazeres. Lamentamos ter que levar para o próximo ano coisas indesejáveis, como dores, dívidas, desavenças… E não nos conformamos com coisas que não poderemos levar.

Momentos especiais de passagem nos põem de cara com o tempo, especialmente com o futuro. Nossa tradição nunca  o privilegiou, embora viva para ele. Privilegiou o passado.

Acredita-se que o passado determina nossa identidade, que ser quem somos, hoje, depende exclusivamente do que já fizemos e dissemos. Mas não é verdade. É o futuro que assegura nossa identidade, pois, se não pudermos continuar agindo como antes, o que fomos não poderá se sustentar.

Não basta ter sido justa minha vida inteira se no próximo gesto eu cometer uma injustiça. É sempre o próximo gesto, o próximo passo, a próxima palavra, aqueles que importam para manter a pessoa que tenho sido. E só eles podem desmanchar no ar uma identidade firmada por toda a vida.

O passado é frágil, porque depende da memória. Perdida a memória, perdido o passado. E o futuro é incerto, porque depende das promessas que fazemos. Se não nos obrigarmos a cumprí-las, pagamos o preço de ficarmos à deriva no mundo, à mercê de contradições e de atender a chamados que não têm a ver com nosso destino.

Embora prioritário na movimentação da vida, o futuro é sempre obscuro. Não porque nos falte o dom de adivinhá-lo, mas porque ele não existe ainda. É feito de sonhos e promessas. Se nossos sonhos se realizarão e nossas promessas serão cumpridas, depende do empenho que vamos dedicar a eles.

Mas não é só essa dedicação que garante a realização de sonhos e promessas. Cada gesto que fazemos nessa direção é recebido pelos outros com quem convivemos, que completam nosso gesto e podem dar outro rumo para o que iniciamos.

Nossos atos apenas começam um acontecimento. Provocam reações em cadeia, e seus resultados são sempre imprevisíveis. E serão impossíveis se não contarmos com a colaboração dos outros. Só o sonho que se sonha junto é realidade, catava Raul Seixas.

Épocas de passagens nos fazem tomar contato com tudo isso. E o que mais exigem de nós é renovação: capacidade de prometer, disponibilidade para conquistar colaboradores e se comprometer com eles, coragem para iniciar e dedicação para empreender.

Dulce Critelli – professora de filosofia da PUC-SP, coordenadora do Existentia – Centro de Orientação e Estudos da Condição Humana, colunista da Folha de São Paulo  (de onde foi extraído o texto, publicado em 11/12/09)  dulcecritelli@existentia.com.br

2 Comentários até agora.

  1. Tania disse:

    Querida amiga… é verdade o que falas sobre seus escritos-retrospectivas. Penso que nunca tenha te dado um retorno sobre o quanto me agradavam. Sua capacidade de escrever e descrever as coisas, as pessoas, o mundo, os fatos, sempre conseguiam pintar cores despecebidas na correria e cegueira do dia a dia.
    Sinto falta daquele cara…
    Beijos
    Tania

  2. Jandi disse:

    Por mais que eu sentisse vontade de te cobrar a crônica de final de ano sabia que não poderia assumir nunca este lugar de “cobradora” vago já há algum tempo. Conincidência, ou não, essa semana, com temperaturas tão baixas, lembrei-me da temperatura de Mirassolândia. A seu modo, de uma maneira que para muito pareceria muito seca, a atenção diluída no grupo era especialmente dirigida a cada um de nós. De uma certa maneira, vc sempre será a nossa porta-voz, pois a sua já tradicional crônica é a nossa maneira de dizer muito obrigada pelo carinho com o qual ele sempre nos brindou. Portanto, mãos a obra. Espero, ou melhor, esperamos, a sua retrospectiva. Beijos, com amor, Jandiara