Somos o tempo em nós

“É uma chatice, mas a partir de certa idade morre-se muito. É certo que há aqueles que se antecipam, morrendo quando ainda não era o tempo, para se tornarem em fantasmas de memórias sem partilha. Foi o que fizeram alguns bons amigos, várias queridas amigas. O que considero uma traição imperdoável. Fazerem-me isso a mim! Mas também há aqueles que permanecem vivos depois do seu tempo, sem a memória de quem foram em quem já não são. O que talvez seja ainda pior”. (Helder Macedo)

 Outro dia eu estava vivenciando essa sensação… geralmente ocorre quando eu tenho dificuldade de lembrar o nome da imagem da pessoa que se projeta na minha mente, mas que não ultrapassa o limbo; ou quando quero me lembrar o nome daquele objeto que está na minha frente, consigo tocar com as mãos, mas fica sem o substantivo da sua exata definição… Nessas situações o nervoso pela incompreensão do absurdo de me ter fugido nomes, faz com que eu jogue a cabeça para o lado e encoste a minha velha existência numa estranha criatura a quem venho sendo apresentada bem lentamente de esquecimento em esquecimento.

Mas esta é só uma faceta das muitas apreensões que o vento da idade nos traz. Assim, nos é permitindo comparar nós mesmos com o “nós mesmos” que um dia fomos. E certamente são muitas as diferenças, nem todas banhadas em lágrimas. A perda da energia talvez seja o primeiro sintoma do efeito do tempo. É quando carregar um galão de água passa a ser uma dificuldade entrecortada por vários momentos de descanso. É quando passar a máquina de cortar grama no quintal passa a ser uma tarefa para vários dias. Portanto, é buscar numa memória não muito distante a tranquilidade com que transportava galões de água para cima e para baixo sem ficar ofegante, ou o quanto era divertido e rápido “pilotar” a máquina de cortar grama sem que o corpo sentisse qualquer grau de rejeição. Mas nem tudo é desvantagem: não conseguir levantar um galão de água hoje me permite reconhecer e admirar a resistência física de quem o consegue, e de quebra alguns conselhos para que a pessoa possa preservar a disposição por um número maior de anos; perseverar dias seguidos numa tarefa que anteriormente me requeria a velocidade de uma manhã e uma tarde, faz com que eu preste mais atenção nos bichinhos da grama, nas flores, no mato que vou arrancando a título de me recuperar um pouco. São percepções com potência diferenciada daquela vivenciada na juventude. Assim como diferem os motivos de tristeza, as idades também diferenciam os motivos de alegria. Mas, convenhamos, viver consiste em equilibrar as tristezas e as alegrias, sendo da ordem da bem-aventurança quem insistir teimosamente que as alegrias são em maior número.

Envelhecer também pode ser maldição. Pode causar um estranho efeito nas pessoas: um súbito não reconhecimento daquilo que sempre foram, e passam a pensar diferente, a agir diferente, a terem postura diferente… um diferente que na sua grande maioria é uma desqualificação de tudo pelo qual poderiam ser reconhecidos. Ficaram velhos no sentido mais pejorativo da palavra: amargos, rabugentos, intolerantes, detetives das imperfeições e das críticas pouco construtivas. De tanto envelhecer, estragaram as boas qualidades da convivência e ruminam todas as espécies de desconfortos e intransigências. Substituem o medo de viver intensamente pela infelicidade constante de sentirem medo de morrer. Identifico os velhos quando além dos gestos rudes guardam no olhar uma dureza congelante. Identifico os velhos quando fazem da idade um salvo conduto para algumas prioridades nem sempre legítimas, seja nas filas dos supermercados, seja na obrigação que os demais deveriam ter em lhes ceder o lugar nos ônibus, seja na falta de gentileza em retribuir um cumprimento que lhes é dirigido. Identifico os velhos quando eles mesmos se apercebem que já viveram demais e exigem benefícios que são incompatíveis para aqueles que vivem plenamente. Acho que acumulei idades na calçada oposta à dos velhos, mesmo que de vez em quando atravesse a rua para voltar correndo para onde o sol me aquece e ilumina.

Quando eu morrer, mesmo que tenha ultrapassado os cem anos, fico torcendo para que pelo menos um possa dizer “Poxa, morreu tão cedo”….

5 Comentários até agora.

  1. renato soares menezes disse:

    Belo texto, sem dúvida, escrito com muita sensibilidade!
    Contudo, hoje em dia, os que possuem 50, 60, 70 ou até mesmo 80 anos estão conseguindo viver de forma satisfatória, seja realizando alguma atividade que lhes preencha o tempo, que seja de utilidade para o outro ou que lhes traga grande satisfação, seja apenas aproveitando, de forma prazeirosa, o ócio conquistado. Ainda não há um termo que os possa definir bem, mas, certamente, já não são os «idosos», os «velhinhos», de tempos idos…

  2. Mônica Barros Coutinho disse:

    Estamos envelhecendo… é um fato! Mas acordar e ficar feliz com o aviso de post novo, me faz sentir jovem… Também quero que possam dizer isso “Poxa, morreu tão cedo… “, não pela idade,porque quero fazer muita coisa, ainda. Mas pelo desejo de estar junto e compartilhar! Perfeita essa sua colocação!

  3. Tania disse:

    Perfeito o penúltimo parágrafo. Irretocável. Vamos morrer sempre muito cedo uma para a outra, amiga. Até o ultimo a lembrar :) bjs

  4. Zilda Lemos disse:

    Amei o seu texto!!!!!! Concordo plenamente que viver consiste em equilibrar as tristezas e as alegrias. Espero que quando eu partir…seja 60, 70, 80, 90 ou até mais, tendo o discernimento que alguém possa dizer morreu tão cedo. Parabéns pelo excelente texto!!!! Beijos

  5. Flavia Rusznak disse:

    Muito lindo o texto! Que ótima reflexão sobre a vida, nos lembrando como devemos viver sempre em alegria e com paixão e compaixão!