Reiniciar é preciso

Meu Amigo,

De tanto me perguntar se 2020 iria demorar muito para chegar, quase me esqueci que 2019 já tinha iniciado e que eu não poderia simplesmente ignorar a caminhada que me estava sendo oferecida. Não dá para pedir para sair. Não dá para gritar “para tudo que eu quero descer”. E se as apreensões são grandes, se as incompreensões são acúmulos distanciados dos esclarecimentos lógicos, se a tristeza embaça o brilho da esperança, se o cansaço se aproxima da desistência, então é hora de cortar o cabelo, fazer uma viagem, ler um excelente livro… É hora de brincar com o velho caleidoscópio da infância e entender que as coisas são ótimas a depender do ângulo que as observamos. Mas para buscar novas percepções é fundamental que o medo vá para longe de onde estivermos. Um baita desperdício de minha parte alimentar o medo que senti com a aproximação de 2019. E viver com medo é, definitivamente, fechar as portas para qualquer alegria, mesmo aquelas mais tímidas que cabem em qualquer espacinho do coração.

Demorei um pouco para revisitar o meu Pote das Gratidões de 2018. Foram muitos acontecimentos, todos muito significativos: tem a gratidão por ter feito contato com uma parente que há muito não tinha notícias, e porque a vida é uma estranheza calculada, alguns meses depois ela veio a falecer; tem a gratidão pela amiga ter se deslocado de outro estado só para passar comigo o aniversário; gratidão por apenas ter arranhado o pé quando a minha perna direita afundou por completo na fossa; gratidão pela disponibilidade constante dos amigos em me ajudar nas dificuldades temporárias; gratidão pelos presentes carinhosos de amigos e vizinhos inscritos na máxima incontestável de que “gentileza gera gentileza”; gratidão pelos bons acontecimentos que envolveram meus amigos e parentes, que também me fizeram feliz; gratidão pelo primeiro fruto que a árvore de romã me presenteou bem perto do Natal; gratidão pelas circunstâncias que fizeram superar os meus limites, as minhas capacidades. Gratidão, enfim, pela ideia de ir anotando ao longo do ano a importância das coisas, pois se assim não tivesse providenciado muito provavelmente seria traída pela memória….

Meu caro, e a gente começa esse 2019 em perfeito alinhamento com todas as sandices que parecem assolar o planeta. Com isto já iniciei o ano com a anuência do Governo para adquirir uma arma, ou melhor, quatro armas de fogo. Além disso tenho, por sugestão, que ficar atenta se meninas vestem rosa e os meninos azul. As ONGs, as Agências de Cooperação Técnica, e sei lá o que mais, se configuram sinistramente nocivas com a mesma maldição recentemente descoberta quanto a globalização ser o mal da vez para a Humanidade. E não vamos falar em nome de Deus porque não faltam procuradores Dele, cujas firmas absolutamente não as reconheço.

Tudo muito sinistro, incompreensível, e de certa forma ameaçador. Mas chegamos até aqui numa sucessão de resiliências quase heroicas, apesar do joelho arrebentado e do pescoço travado. Acordar duas ou três vezes à noite com dor ou assustada, se impõe à possibilidade de nunca mais acordar qualquer dia desses. Portanto, enquanto for possível, que prevaleça a vida com seu acúmulo de saudades, definitivas ou provisórias. E se são tempos difíceis, que saibamos caminhar com suavidade em perfeita sintonia com o que acreditamos e desejamos. Sobretudo, que saibamos distinguir a parte que nos compete para que a harmonia seja preservada, sem, no entanto, ceder aos princípios que não nos dizem respeito. É verdade que envelhecemos mais sós, porque o instinto de sobrevivência ou talvez pelo punhado de sabedoria adquirida, conseguimos nos afastar das pessoas que resistem ao diálogo e querem impor suas verdades sem se darem conta que nada é absoluto. Envelhecemos mais solitários, mas em paz com as nossas próprias dúvidas.

Quando a nossa convivência era menos etérea, éramos jovens e nosso cardápio de preocupações era outro. No fundo, havia uma centelha permanente que nos mobilizava a seguir em frente, intrépidos, porque supúnhamos que todos os nossos sonhos eram realizáveis. Aos poucos, muito cedo para o meu gosto, aprendemos que alguns fatos são intransponíveis, que as saudades vão preenchendo o peito, que a saúde não é companheira eterna. Descobrir que somos limitados talvez seja o rito de passagem para a maturidade. Respeitar nossos limites, sem covardia, talvez seja o privilégio de quem sabe envelhecer. Quando jovens, todas essas questões pungentes de 2019 atravessavam a nossa existência, em grau e cor diferenciadas, seja porque tudo era menos transparente seja porque nossa capacidade de transcender tinha pinceladas épicas. Se pudéssemos conversar hoje sobre quem fomos um dia, talvez déssemos boas gargalhadas da fantasia de que tudo podíamos e nada poderia se interpor à conquista de nossos sonhos.

Pois é, Amigo, 2019 está aí. E 2020 que espere a sua hora de acontecer. Nesse intervalo entre hoje e o amanhã cabe a mim, cabe a cada um de nós, saber receber os esperados e os inesperados com a gratidão de serem eles possibilidades preciosas de nos conhecermos e nos reconhecermos nos imperativos inabaláveis de nossa alma.

Forte abraço,

Vera Cristina

6 Comentários até agora.

  1. Kelly disse:

    Não me canso de te dizer: espero ansiosa por suas reflexões aqui compartilhadas. Suas palavras são bálsamo à compreensão desejada, a maturidade, a objetividade… quero e trilho este caminho. Contigo aprendi a dar valor ao silêncio, ouvir apenas o necessário e estabelecer contato com meu ego falador, crente em sonhos vindouros, entretanto, idos de muitos que se preocuparam com a relação exterior. Hoje dou valor a este mágico encontro interior, fiel e comprometida com esses últimos instantes, seja a morte pelo tempo necessário de vida, seja a vida cruel levada pela entropia vivida, justificada pela ordem divina (ops, talvez pela ordem da ignorância que justifica quem pode ou não estar no mundo disso que insistem a chamar de humanidade ). Obrigada, Vera, por um dia ter cruzado a minha alma, pois estas aqui.

  2. Tania disse:

    Amei, como sempre. Disse tudo. Gratidão. Bj

  3. Diderot disse:

    Vera dos mais lindos e realista dos últimos tempos.Parabéns!!
    Você bateu o escanteio, correu para cabecear na área fazendo um golaço, apitou como juíza confirmando e como goleira sentiu aquela pressão na “boca-do-estômago” que nos aflige nesses momentos. Mesmo recebendo um “game over” reinicializou o sistema e com um “play again” seguiu participando do “jogo-da-vida”…

  4. renato soares menezes disse:

    Tentando sintetizar esse belo texto:
    Gratidão, ao reconhecer que a vida é um presente.
    Esperança, o alimento da nossa alma, ao qual se mistura quase sempre o veneno do medo.
    E, como pano de fundo desses sentimentos, a nossa realidade, a realidade brasileira, para o bem e para o mal, com as suas esperadas e inesperadas possibilidades.
    Avancemos com otimismo, deixando de lado a intolerância, a incompreensão, o repúdio gratuito, o negativismo.
    Vivamos a vida!

  5. Jandiara disse:

    Sempre começo a ler o seu “Meu Amigo” respirando muito fundo, porque essas duas palavras têm o poder de me deixar mais emotiva, conforme exaustivamente mencionei! Belíssimo texto! E, melhor de tudo, saber q mais uma vez estamos juntas. Agora, no rito de passagem para a maturidade. Gratidão. ❤️

  6. Mônica Barros disse:

    Ler seu texto faz bem para o coração! Também me senti assim nesse final de ano… resiliência, como você escreveu… a capacidade de apesar das adversidades não perdermos os imperativos inabaláveis da nossa alma… e gratidão pela vida, por tudo e por não estarmos sós nessa jornada! Obrigada, Vera por compartilhar seu texto! Bj