Ode ao ovo frito e circunvizinhanças

A questão é muito séria e tão fortemente entranhada na minha biografia que, sem nenhum acanhamento, posso afirmar que todos os arquitetos deveriam se debruçar respeitosamente nos planos, superfícies, formas, escalas, texturas, cores…., esculturalmente representadas num ovo frito criteriosamente depositado sobre um punhado de arroz branco. Ambos na boa temperatura, indicando terem sido recentemente preparados. Não há ambientação mais harmoniosa que a cumplicidade desses dois elementos quando unidos pela exigência ditada pela fome.

Um ovo frito com arroz só perde para outro ovo frito com arroz. A diferença entre o vencedor e o perdedor nos remete a uma singular cosmologia, considerando que ser ou não ser são derivações externas que não dependem exclusivamente nem do ovo nem do arroz, mas de quem os prepara. Um cozinheiro que desconhece a arte de lidar com os dois, certamente irá imprimir o fracasso na composição final. Já quem não negligencia todas as nuances combinatórias (inesgotáveis) de um ovo frito apresentado sobre um arroz branco, saberá trata-los como uma obra de arte.

O arroz deve ser úmido sem nunca se aproximar do arroz empapado, muito menos se apresentar na condição do “unidos venceremos”. Os grãos devem manter, cada um, sua individualidade própria, cair pelas fendas do garfo como um atleta a exibir-se na exuberância de sua forma. Cebola e alho conferem alma na medida certa do óleo que os refoga. Já o ovo frito exige menos (nada além de óleo/manteiga e sal) mas nem por isto deixa de ser menos melindroso para quem quiser alcançar a sua exuberância. Um ovo frito não deve se apresentar cru na sua superfície. Clara e gema possuem um ponto muito sutil que quando alcançado revela-se um portal para a transcendência gustativa. O que significa dizer que o ovo frito com arroz branco é uma fonte de autoconhecimento daquele que o sabe apreciar.

Quando jovem, organizava secretamente concursos entre as mães de meus amiguinhos (naquele tempo os pais passavam longe da cozinha. Hoje espero que isso tenha mudado) procurando eleger aquelas refinadas na habilidade artística do ovo frito com arroz branco. Meu segredo sobre a culinária alheia permitiu que até hoje eu tenha lembranças magníficas de algumas mulheres que na minha avaliação juvenil mereceram honrosamente o título de “mãe perfeita”. Essas senhoras nunca souberam a intensidade da minha admiração porque por mais que elogiasse o que eu estava degustando, não tinha vocabulário que correspondesse ao prazer da experiência.

Pretende-se que a vida seja simples como um ovo frito sobre o arroz branco. E é assim mesmo: a simplicidade só se estabelece a partir de pré-requisitos desafiadores. É preciso muita coragem e treinamento árduo para retirar da vida as múltiplas camadas dos supérfluos que equivocadamente insistem no desejo de protagonismo. Minha meta nesta existência é saber cada vez mais a importância de um ovo frito sobre o arroz branco e de que forma habilitar-me no aperfeiçoamento em saboreá-los.

 (A partir de um comentário de Nélida Piñon: “Sou sociável, diria mundana. Aceito o pão e o vinho do amigo. Sinto estar sendo conduzida pelos deuses para confrontar-me com o afeto, a euforia, o brinde, o ovo frito montado sobre o arroz branco…”) 

6 Comentários até agora.

  1. Tania H R Salgueiro disse:

    Botofé nessa dupla, uma das minhas preteridas. No entanto com uma variável, amo arroz unidos venceremos.

  2. Kelly disse:

    Veja como são as coisas aqui dentro desta cachola fragmentada em tantas vivencias que me deixam tonta, prazerosamente ébria em memória. Tua crônica é simplemente esplendorosa! Primeiro convocou minhas recordações em que dividi a mesa contigo, almoços e jantares em que a angústia dominava-me com questionamentos infantojuvenis: como alguém pode gostar de pratos monocromáticos, brancos e massudos que me faltavam informações nutricionais sobre sua potência de ação no corpo?!… O ego-eu-torto sempre querendo buscar fontes substanciais que não dão conta da simplicidade do real. Então fui jogada as garras de uma síndrome tosca de mãe-má, buscando justificativas para saber como um corpo consegue se nutrir com algo tão simples… Na sequência veio até a memória de um dos últimos momentos juntas, e aí veio a resposta. Lembro-me do dia que aí cheguei e já fui a cozinha para dar o toque da mãe boa, aquela que fantasia que o todo da conta de um tudo. Lembrei-me de que fui pegando isso, mais aquilo, e depois reclamava que não tinha todos os temperos, e que ficaria divino se tivesse o outro toque daquele verde que iria dar o sabor a todo o resto… bem, tudo isso para te dizer que ainda tenho muito pela frente para deixar atrás essa criança que crê que muito faz a diferença, quando, na verdade, a grande sacada está na maestria da observância, de saber separar os temperos, colocar o alho e a cebola, refogar os grãos de maneira harmoniosa; saber o tempo certo e compreender o espaço que os grãos serão trabalhados; aguardar o momento para deixar as individualidades úmidas, não secas, nem juntas, muito menos unidas, mas respeitando cada qual que ali tem sua particularidade. Aida tem o ovo que não precisa de tanta coisa por ser ele mesmo completo, um ovo — e eu querendo uma omelete colorida, hem! — que, no ponto certo, cobre todas aquelas pequenininhas singularidades, quebradas, tortinhas, perfeitas, de tantas ‘nuances’ que só os claros conseguem perceber… Veruska é por isso que eu te amo, um amor que aprendeu e aprende sempre a ser bem melhor em todos os instantes. Hoje, com o silêncio, talvez a criança ainda goste de fazer de um ovo uma obra de arte, mas, neste instante, já com menos intensidade, por saber que até na simplicidade de um arroz com ovo está a complexidade da vida. Adorei o que este texto trouxe… vou correr para fazer um belo arroz com ovo!

  3. Jandiara disse:

    Finalmente chegou o dia de ler sobre a tua paixão por arroz com ovo!!!! Lembranças do final de nossa adolescência e convivência após… Desnecessário falar do sorriso que brotou em meu rosto.

  4. Diderô Carlos Lopes disse:

    Embora aprecie o “arroz-com-ovo-frito” existe algo investigativo, que se apresenta não sei de onde, que me afasta dessa mesa.
    Assim sendo aquelas raras pessoas que sabem traçar uma linha reta entre A e B são bem vindas e tem cadeira reservada em qualquer situação. São fundamentais no meu exercício de caminhar apenas.
    A busca de tentar fazer omelete sem ovo continua…
    Verusca sem você tudo seria mais difícil. Um forte abraço e sucesso!!

  5. renato soares menezes disse:

    Não sabia desse seu entusiasmo gastronômico por um ovo frito deitado sobre uma porção de arroz…
    De qualquer forma, o texto está deliciosamente bem redigido e até me deu vontade de degustar esse ovo frito com arroz (só que eu prefiro o ovo frito com gema dura)!!! Mais ainda, me deu saudades dos quitutes preparados por nossa Avó Ophélia e por nossa Tia Maria de Lourdes… E essa lembrança deu azo a várias outras recordações da nossa infância – o que, por sua vez, me remeteu às madalenas de Proust, à procura do tempo perdido («À la recherche du temps perdu»)…
    Veja só o incrível poder de um texto bem escrito, ainda que seja sobre um aparentemente simples ovo frito com arroz!

  6. Mônica Barros disse:

    Que delícia de texto! Gosto muito do ovo frito com arroz, que me remete mais à praticidade, quando estou cansada e não tem nada pronto. Fiquei pensando que todos aqui em casa comem com prazer, mas o quanto nunca refleti sobre isso, a simplicidade é ofuscada e não enxergamos seu devido valor… Obrigada pelo texto!