Uns tão iguais, uns tão diferentes…e não há outros

Não sei não, mas a esquisitice das coisas é reconhecida tanto pela minha alma quanto pelo meu físico…. Não bastasse a insegurança econômica que arrasta milhões de desempregados para filas que esporadicamente se formam nas oportunidades que aqui e acolá acontecem, temos a violência social que se dá em diferentes contextos, seja à mão armada seja na incapacidade de tolerância que corrói as relações. Tá difícil… embora ninguém tenha nos dito que seria moleza….

Eu moro num condomínio dividindo espaço com 528 lotes constituídos por famílias de diversos tamanhos e na expectativa de que os demais 128 lotes venham a ser ocupados por outras tantas famílias. Por aqui a comunidade vive em harmonia, salvo numa situação específica – na época da eleição presidencial – em que a polarização vivenciada no Brasil inteiro conseguiu se infiltrar no nosso endereço provocando rachaduras na comunicação, violando o bom senso de forma irrecuperável, até hoje. Mas salvo esse triste incidente, ou até mesmo por causa desse triste incidente, percebo que a comunidade vem estreitando laços de solidariedade de uma forma bastante consistente. O que mais chama a minha atenção é que somos um público dos mais diversificados que a imaginação alcança: temos solitários, temos famílias enormes, temos gente que ama cachorro, temos pessoas que amam gato, temos até quem resolveu criar cavalos por aqui – que por sinal são lindos e chamam muita atenção pelos bons tratos -, temos músicos, temos funcionários públicos, temos aposentados em boa quantidade, temos crianças, temos idosos, temos uns mais loucos que outros, temos gente que batalha, temos gente que incomoda, temos gente que sabe ser amável, temos de tudo um pouco, graças aos bons deuses. A solidariedade se estabelece a partir de uma rede não formal – o famoso “boca à boca” – que vai informando as iniciativas surgidas a partir das habilidades criativas que cada um transforma em empreendedorismo. Assim, temos quem forneça quentinhas, temos a velhinha simpática que usa seu carro para transportar quem precisa se deslocar e não tem veículo, temos a corajosa que chegou do interior e providenciou um food-truck vendendo hambúrgueres altamente saborosos, temos a veterinária que atende a quase todos os animais do nosso convívio, temos os funcionários do próprio condomínio – os imprescindíveis “quebra-galhos” – que fazem reparos nas casas fora dos horários em que estão empregados, temos uma escola de música itinerante que oferece aulas de violão em domicílio, e temos, sobretudo, a gentileza que permeia as relações e que não se estabelece de forma pecuniária, mas pela alegria de proporcionar e também de receber uma delicadeza afetiva.

Somos uns muitos, enfim, que procuramos no dia a dia dar mais atenção ao que temos em comum, sem valorizar negativamente as diferenças que poderiam nos afastar.

Baita comunidade que me deixa orgulhosa e que me permite acreditar que pode ir muito mais além dos muros que nos protegem ….

 

4 Comentários até agora.

  1. Tania disse:

    Enfim, que coisa boa. Precisamos de lugares e registros assim. Bj

  2. Jandiara disse:

    Tô precisando viver num lugar assim….

  3. Mônica Barros Coutinho disse:

    Uma dádiva construir a possibilidade da solidariedade, entre uns tão iguais e tão diferentes… E se sentir em casa… Num tempo em que vigora um discurso que exclui a diferença, seja ela qual for, vem o coração com a solidariedade unir… Um alento para o coração!

  4. renato menezes disse:

    Solidariedade e sobrevivência em um clima harmonioso. É esse clima que, a meu ver, se destaca no texto. O mesmo que se nota na zona comercial do Lago Norte em torno da «Quituart», onde os moradores vendem os seus quitutes e as suas artes e onde todos acabam por se conhecerem e a se tratarem pelo nome – incluindo os vendedores da banca de jornal, o chaveiro, os que trabalham na padaria, na farmácia. O mesmo que se nota no prédio comercial do Tivoli Forum, na Avenida da Liberdade, em Lisboa, no qual os trabalhadores de todos os dias, das mais diversas profissões, acabam também por se conhecerem. E é isso que faz o charme de Lisboa, uma grande cidade, uma capital, que ainda consegue guardar o jeitinho de uma província… Viva a harmonia que, praticamente, coloca em pé de igualdade as diferentes gentes, que exercem diferentes atividades, que possuem ideologias diferentes e que professam crenças diferentes. São pessoas que estão de bem com elas mesmas e com a vida.