Adeus às Armas

Tem certas coisas, eu diria até que são muitas coisas, que se diferenciam quando atingimos uma idade avançada. O primeiro sintoma que observo nos meus amigos e em mim mesma, diz respeito ao desapego. É quando passamos em revista a casa e nos perguntamos como fomos capazes de acumular tanto se nem a metade utilizamos no dia a dia. A conclusão geralmente é admitir que amealhamos muitas inutilidades com a certeza de que naquele determinado momento que as adquirimos, elas seriam absolutamente imprescindíveis na nossa vida. O tempo fatalmente nos fará sentir que estávamos enganados.

Nessas situações é de bom alvitre que digamos adeus àquelas armas enferrujadas que um dia acreditamos que nos fariam pessoas mais realizadas, mais práticas, mais satisfeitas nas necessidades nem sempre explicáveis. E felizmente, tem sempre alguém que se sente feliz em receber pedaços da gente que deixaram de ser refrescantes para a nossa existência. Ainda bem…

Portanto, podemos concluir que “inutilidade” é uma palavra bastante perigosa. Ela sofre direta influência do tempo e a depender da vivência de cada um tem uma atuação ferruginosa bastante devastadora. O desagradável mesmo é quando essa sensação de inutilidade atravessa a fronteira do material e fica adesivada nos comportamentos e atitudes. Nesses casos o mínimo de sabedoria recomenda que não devemos transferir para ninguém o que atestamos inútil, desnecessário, ignorante, em nós. Mas esta é uma outra história bem mais difícil de ser resolvida.

Pois bem, outro dia eu tive a pachorra de tentar contar todas as canetas-tinteiro que acumulei durante a vida. Resolvi parar de contar quando na minha frente havia 85 canetas e sabia que outras, muitas outras, esperavam a conclusão do inquérito contábil. Como é possível eu ter mais canetas-tinteiro que anos de vida…. Quando cheguei na marca de 85 canetas me veio a dolorosa questão: E agora? O que eu faço com isso? A questão é mais delicada ainda porque tocando nas canetas eu fui capaz de me recordar do momento exato em que algumas delas foram obtidas. Tenho canetas compradas em feiras de antiguidade, daquelas de rua. Tenho canetas compradas em lojas despretensiosas de artigos do lar, só que em Paris. Tenho uma caneta, muito especial, que me foi deixada de herança por um amigo que faleceu de aids, no tempo em que a aids nos impunha um pacto com a saudade, já que inevitável. Me lembrei do tempo em que minha dedicação a tais canetas era uma espécie de ritual sagrado: todas minuciosamente limpas, nenhuma pena entupida, todas prontas a serem usadas a qualquer tempo. Continuam assim, mesmo que neste tempo elas já não tenham uso…

Sempre tive especial respeito para com canetas, fossem elas de qualquer natureza desde que me possibilitassem uma escrita fina. Na minha loucura obsessiva sempre atribuí às canetas o poder absoluto de serem elas responsáveis únicas pelos textos que cada uma seria capaz de produzir. E esta crença me acompanhou anos a fio, por tempo indeterminado de tão constante. Naturalmente, nunca revelei isso para ninguém, muito provavelmente para me preservar de uma necessária recomendação para consultar um psiquiatra. Nossa… como eu era feliz a cada caneta adquirida, e como a minha atenção e acuidade se debruçavam em analisar uma espécie identificada como novidade. Adorava aquelas de pena embutida, que só deixavam à mostra um pedacinho mínimo do metal por onde os textos eram concebidos. Talvez minha gradativa cura com relação às canetas-tinteiro tenha ocorrido com a escassez no mercado desse tipo de caneta, havendo uma absoluta oferta de canetas com pena totalmente exposta, o que me sugere uma certa agressividade, uma possível falta de delicadeza nos textos que elas poderiam produzir.

Hoje eu não sei bem o que fazer com essas canetas, sobretudo porque mantenho um especial carinho por elas, embora admita com todas as letras serem elas INÚTEIS. Alguns podem dizer: “Ah…finalmente amadureceu!” Creio que não se trata de amadurecimento não… Umas das grandes revoluções que ocorreram no transcurso da minha existência foi o tal do correio eletrônico. Atribuo a essa ferramenta a distância quase absoluta das correspondências que eram trocadas com as pessoas com a devida paciência de se esperar o recebimento pelos Correios. E tudo era quase divino e maravilhoso, desde a escolha da caneta para o texto que a pessoa receberia, passando pela seleção do papel ou do cartão, até a exigência junto aos Correios para que os selos fossem os mais bonitos (Confesso que cheguei, muitas vezes, a pagar além da tarifa só para as pessoas receberem selos mais atraentes nas cartas que enviei…). Acabou tudo isso. Resolvo necessidades e afetividades por correio eletrônico ou por Whatsapp. Essa vida instantânea agride a minha alma medieval…

É isso. Minhas armas, que por tanto tempo me impuseram vitórias e derrotas de expressão, repousam silenciosas em grandes quantidades de caixas no fundo de armários nunca visitados. São velhas e inúteis como frequentemente assim também me avalio….

3 Comentários até agora.

  1. Tania disse:

    Não é? Quase sempre fui amarradona em desfazer de coisas. Penso que o aprendizado de perder gente, a meu ver, cedo demais ajudou. Separe aquelas que te traduzem, seu coração saberá. Às demais, doações. Bjs

  2. kelly meira disse:

    Não fosse esta relação com as canetas, um texto sincero desses jamais teria sido produzido. Não fosse a obsessão desmedida em selecionar carinhosamente os selos das cartas, o selo ‘vertigem das palavras’ seria um eco sem ressonância. Pelo contrário, é esse tom barroco, isto que você aponta como medieval, que traz à tona seus mais belos produtos, alcança outras almas absurdamente carentes de nostalgias a fim de sobreviverem nisto que é pura obsolescência. Escreva, Veruska, escreva !

  3. Diderot disse:

    Para ser muito econômico pois as palavras não-me- pertencem e nem com elas tenho “vertigens”, acho que encontrei aqui nesse espaço algo que foi compartilhado e entendo como válido para ser posto adiante, adicionando dois sinais para dar mais destaque: “Escreva, Veruska, escreva”!!. Por favor mergulhe fundo ampliando a “vertigem” criando mais espaço para esse exercício de libertação compartilhada. Será muito bem vindo. Sucesso!