Tempos Embrutecidos

Olha, do jeito que as coisas caminham é bem possível que tenhamos que lidar, muito em breve, com a pena de morte no nosso país. Vigê… vai ser mais um motivo para que a polarização aconteça com violência, e portanto, todos os lados saiam perdedores.

Acho que já deu para todo mundo perceber que aquela imagem de povo bonachão, cordial, pacato, que resolve tudo com humor, sátira e samba, foi substituído há muito tempo. Que toda essa fantasia foi devorada pelas traças do ódio, da intolerância, do preconceito, pelo cooperativismo dos que se julgam iguais e donos da mesma verdade. Somos um povo essencialmente binário, constituído pelos que são “a favor” e pelos que são “contra” em qualquer assunto, incluindo os mais fúteis e desnecessários. É verdade que existe uma terceira onda, muitíssimo insignificante que tenta o equilíbrio, que tenta se esquivar das armadilhas que sugerem que as opiniões devam ser extremistas e encorajadoras de embates insanos.

Tá todo mundo brigando por tudo e por nada. Uma fechada no trânsito é morte na certa. Se o time perde é sangue nas proximidades do estádio numa caça feroz ao time adversário. Se o professor repreende o aluno, vai parar no hospital e com sequelas traumáticas dificilmente superadas. Se a mulher resolve se separar das agressões do marido, já sabemos que muito provavelmente entrará nas estatísticas de feminicídio. Isso para citar alguns exemplos do quanto somos beligerantes a partir das nossas doenças mal tratadas. Quando nos descuidamos, matamos ou morremos…. Um povo embrutecido além de sustentar uma quantidade impressionante de homicídios, ainda amarga crescentes aumentos nos números de suicídios. É sabido e cientificamente comprovadas tais afirmações.

Outro dia eu fiquei num pré estado de catatonia, olhando atentamente para o nada, querendo entender como é possível o ser humano ter atitudes torpes sem que haja rasgos de lucidez capazes de interromper o comportamento antes que ele se torne um ato consumado. Eis o caso: surge nas redes sociais denúncia veemente contra uma prestadora de serviço que vende “quentinhas”, afirmando tratar-se de profissional desqualificada por não ter entregue o pedido na casa da solicitante na hora combinada. O que mais me apavorou foram as palavras desprovidas de qualquer código de ética, com a intenção flagrante de destruir a reputação da dona do modesto negócio. Como diz o velho ditado, toda ação implica reação. Daí, a senhora agredida teve que usar todos os recursos para provar que ela não era culpada, mas simplesmente o motoboy não foi recebido no horário acordado da entrega. Para tanto teve que usar arquivo de áudio do entregador comunicando à empresária que estava na casa e que ninguém o atendia. Uma situação absurdamente surreal por si só, mas para mim é muito mais séria a coisa. Nossos personagens são de camadas sociais bem distanciadas: uma, moradora de condomínio de classe média; a outra uma cozinheira humilde que sobrevive vendendo “quentinhas”. Será que a denunciante teria o mesmo ímpeto se o produto de uma “chef de cuisine” não tivesse lhe sido entregue? Será que a prepotência, a intolerância, a arrogância, e tantas coisas feias que destilaram na sua denúncia (infundada) permaneceriam inalteradas se do outro lado ela estivesse interagindo com uma pessoa da mesma classe social? O lado bom, se é que existe lado bom nessa história, é que as pessoas da rede social não se dividiram entre “os contra” e “os a favor”, todos foram unânimes em defender a qualidade da comida que sempre foi servida e do rigor no cumprimento dos horários de entrega.

Eu sinto um profundo desgosto quando determinadas atitudes me fazem sentir vergonha pela pessoa. Também devo dizer que me entristeço nas vezes que eu mesma caio em provocações e me vejo sendo tão sem noção quanto quem consegue me fazer perder o controle, o bom senso, a civilidade. Quando dou por mim, lá estou eu xingando o motorista abusado que já vinha de longe desrespeitando os demais motoristas. Ao invés de me ocorrer pensamentos mais condescendentes, levantar hipóteses que possam atenuar o comportamento recriminado, discorro a série de palavrões que aprendi, sendo eu a única a ouvi-los porque o motorista maluco já está lá na frente fazendo “barbeiragens” contínuas. E eu nem quis relativizar, tipo: vai ver que a mãe estava morrendo, vai ver que estava indo buscar o filho acidentado, vai ver que estava levando alguém para o hospital….. Sei lá…. No final só sobra eu indignada, descompensada, energia completamente desperdiçada que só alimenta a barbárie…

Estamos muito assim: “dente por dente”, “olho por olho”, “faca por faca”, “soco por soco” e tantas idiotices outras…. Um processo civilizatório dos mais invertidos e contraditórios. Alguém já deve ter dito que “viver é para os fortes”, provavelmente o Charles Darwin na sua teoria da evolução das espécies. Mas para mim fortes são aqueles que não perdem a ternura, que preservam o respeito pelo outro por mais que se diferenciem nas opiniões, são aqueles capacitados à gentileza, inclinados à generosidade, que insistem na prática de valores que engrandecem o humano.

Um Comentário até agora.

  1. kelly meira disse:

    Vera.
    O que dizer diante desta reflexão ? Talvez algo sobre a conclusão, porque é nesta que teu enunciado extrai uma solução: graças às boas energias sempre existiram ao menos alguns poucos que se atentaram à observação, por mais que constatassem a obviedade – a guerra de todos contra todos – mostraram que há caminhos para mudar o foco de olhar, afinal é possível sempre se questionar para além de julgar o simples imediato. Colocar-se a pensar infelizmente não cabe a muitos, são poucos, como você, que se permitem a analisar o dentro para verem os extramuros de si. Sempre é possível deixar o que é dos outros para que eles mesmos se resolvam. Tomar emprestado a raiva é voltar à barbárie, é sepultar a vida ativa e morrer pelo ato do próprio olhar. Assim como a denunciante morreu, porque não viu que sua soberba não fazia jus ao compromisso da trabalhadora.Tantos outros, de todos os lados, morrem todos os instantes pela sentença do juízo imediato… mas diante disso tudo ainda se teve uma melhora, por mais insignificante que possa parecer, hoje pela mesma rede que se sentencia à fogueira é possível de se apagar o fogo pela força dos fatos; e que também não isolam o denunciado de hoje vir a ser o denunciante de amanhã. No final, o bom processo civilizatório é apenas uma casca de verniz, só nos retirou da praça pública a verificar o bom degolamento, ver queimar os tantos corpos, para deixar escapar no mesmo do julgar. E por isso tudo, a questão sobre a pena de morte é só outra camada do laço real que faz o humano: queime o diferente, mate o insignificante, lixem os que pensam diferente de mim. Ninguém está preparado para ser julgado, mas condenam à revelia para se protegerem da própria insanidade. Seu texto ecoa em mim!