Um Tema, Dois Autores

Recentemente terminei a leitura de dois livros ambientados no período em que o AI5 foi instituído no país. Período certamente bastante triste da nossa história, quando a violência assumiu proporções capilares devastadoras, tanto no que diz respeito ao número de mortos e a forma pela qual tais mortes ocorreram, quanto no que diz respeito ao cerceamento de informações e à quantidade de fake news em verde e amarelo brilhantes que a militarização ofereceu ao povo.

Os dois livros foram escritos em 1988 e mencionam os mesmos fatos históricos. O primeiro que li foi do Zuenir Ventura (“1968 – O Ano que Não Terminou”) e se atém aos fatos com matizes de documentário. O segundo foi escrito pela Ana Maria Machado (“Tropical Sol da Liberdade”) e embora situe os mesmos acontecimentos daqueles anos, ganha contornos de romance. Eu diria que o primeiro é um livro masculino: repleto de informações, cirúrgico nas suas análises, os sentimentos explodem dos fatos apesar da narrativa racional do texto. Já o segundo é um livro que identifiquei bastante feminino: todas as emoções nos são transferidas na medida em que a personagem vai nos revelando a sua história, e a de sua família, ao longo daqueles anos.

Os fatos mencionados naturalmente não encantam o leitor e não duvido que muitas pessoas questionem se realmente eles aconteceram, mesmo que a imprensa os tenha mencionados com mais ou menos tinta, na medida da disponibilidade de tantos tons escuros. O que, inquestionavelmente, me emocionou foi apreciar os diferentes estilos, impecáveis, dos escribas. É claro que a depender de quem estiver lendo, a preferência irá recair para um dos autores. Comigo não foi diferente. Apesar de eleger um preferido, curvo-me respeitosamente à capacidade de ambos em propiciar uma leitura envolvente e instigante. O que me pergunto é: o que faz um texto ser agradável para quem lê?

Aí é inevitável que a resposta recaia sobre o leitor, em detrimento do autor. Existem leitores para todos os estilos. Existem leitores fáceis. São aqueles que apreciam frases curtas, com palavras que cotidianamente reconhecemos, capazes de compartilhar a informação de uma forma simples e objetiva; a sofisticação está no conforto da mensagem transmitida com clareza. Mas existem também leitores difíceis. Que podem até revelar serem, igualmente, pessoas difíceis. São os apreciadores de longas sentenças em que várias informações se acumulam num único período. As palavras são mais rebuscadas, exigindo que o leitor identifique o melhor significado para o sentido do que se quer transmitir. Esses leitores são especiais porque capazes de reler um parágrafo inúmeras vezes até se sentirem confortáveis, acreditando terem conseguido captar a mensagem, quase cifrada, proposta pelo autor.

Acredito que a parte indolente do meu temperamento se manifeste intensamente nas vezes que abro um livro. O meu raciocínio é bem básico: se você quer me dizer algo, por favor poupe os meus neurônios, que já são bem deficientes, e me diga claramente a sua opinião, facilitando que sobre ela eu tenha, ou não tenha, algo a acrescentar ou retrucar. No entanto, que fique bem entendido: um texto objetivo não implica, necessariamente, ausência de beleza na transmissão do pensamento. A poesia, as associações plenas de simbolismos não reduzem o entendimento do texto, ao contrário, expandem a imaginação e muitas vezes são responsáveis por novas dimensões alcançadas pelo leitor.

Os dois livros referendados me agradaram muito, mesmo considerando tratar-se de estilos diferentes. Os dois conseguiram manter o meu interesse pela leitura, conseguiram enriquecer o meu cardápio histórico sobre o país, conseguiram me fazer refletir sobre alguns aspectos cíclicos afeitos à civilização, conseguiram, enfim, me tornar um pouco mais ilustrada.

Obrigada a ambos!

Um Comentário até agora.

  1. Diderot disse:

    Reconheço em você Vera uma excelente “leitora”. Você tem muito a oferecer em conteúdo, precisão na comunicação das ideias, estilo pessoal aprimorado e amadurecido, entre outros. Parabéns!!