O que será? O que seremos?

Eu nem sabia, mas a cada dois anos, desde 2000, se dá o rompimento de uma barragem neste país. É bem verdade que MG detém um triste recorde, mas outras ocorreram em PB, RO, PI, AP. Aquelas que não mataram diretamente as pessoas, destruíram o meio ambiente onde pessoas viviam. É muito sutil a diferença, se é que há diferença. A morte anda solta, como uma bruxa ávida, batendo as asas da destruição no tempo.

Agora temos a ameaça do COVID-19, que nos dá a certeza que estamos todos num mesmo barco, e o mundo não passa de uma bola de gude pela extrema capacidade de desencadear reações que varam continentes, ironizando a ideia de que existem fronteiras por aqui e por ali.

Mas não é só isso não, no intervalo entre uma coisa ruim para outra pior, lidamos com notícias que rompem a tentativa de se manterem escondidinhas e passam a minar o conceito de humanidade que tentamos alinhavar entre os seres. E temos uma coleção: é água contaminada distribuída à população; são crimes que eternamente aguardam justiça (boate Kiss, incêndio na Toca do Urubu, Mariana, Brumadinho, colarinhos brancos que já ficaram rotos sobre as mesas de juízes); é a violência no trânsito que aumenta mais que o preço do combustível antes da atual crise petrolífera; é o feminicídio numa escala vertiginosa sobretudo no confinamento de agora; é a intolerância que impede o diálogo e deixa tudo “partido”; é a propaganda governamental que não corresponde à realidade…

Cansaço sem medida, confesso. Mas ninguém se alimenta com um cardápio diferente daquele que lhe é servido. Então reinventar é preciso, numa forçosa criatividade de sobrevivência. Nós somos seres estranhos: passamos grande parte do tempo dizendo que queríamos estar mais tempo com a família, e quando esta situação nos é imposta sentimos falta da vida que era objeto das nossas reclamações. Deve ser essa coisa chamada liberdade que nos faz falta. Queremos estar com a família com a opção de também não estar. Queremos trabalhar como quem se diverte, não com a sensação de desejar que o dia termine logo para ficarmos livre da opressão. Não tem jeito. Sempre apontamos alguma coisa a ser retocada por mais prazerosa a situação. É quase do humano essa insaciável insatisfação. Digo quase porque alguns humanos já galgaram os primeiros degraus do viver em paz, aprendendo a vivenciar cada momento com estabilidade emocional, longe das euforias e distante das cargas dramáticas. Ainda são raros tais entes e certamente não faço parte dessa turma, embora ambicione ingressar nessa escola.

Já sabemos de longa data que somos insatisfeitos, contraditórios e emocionalmente primitivos. Tá. Beleza. A questão é saber o que fazemos com isso. Ou morremos com essa primitiva insatisfação emocionalmente contraditória, ou lapidamos a pedra bruta, instintiva, que foi o primórdio do reconhecimento do homo sapiens, lá atrás, eras distantes. Evoluímos pouco. Pior, tenho a impressão que andamos em círculos e para esta hipótese a História aponta cíclicos acontecimentos. E houve certa humilhação quando nos atribuíram por predicativo o “sapiens” que, sinceramente, não inspira luminar sabedoria…

Há quem diga que esse COVID-19 veio para redenção do ser humano. Não é um determinismo, apenas uma tênue oportunidade. Cabe ao ser humano salvar-se de si mesmo e essa pandemia só veio dar uma forcinha para esse itinerário de caráter necessariamente introspectivo. Os que conseguirem sobreviver podem ser identificados a partir de três grupos: os que foram capazes de upgrade pessoal (e consequentemente social); os que se mantiveram imunes e só refletiram sobre como retornar ao que lhes foi interditado; e aqueles que declinaram e só conseguiram culpar a China, Deus, os vizinhos, os russos, etc., nem se deram conta da própria existência e responsabilidade.

Somos assim, múltiplos, diferenciados, limitados… e temos que lidar com o fato, este incontestável, de que por maior que seja a nossa dedicação em entender – e nos entendermos – nisso tudo, sempre ficaremos aquém de um estável conforto com relação a nossa posição no enredo. Tudo bem. Ainda vale a investigação.

5 thoughts on “O que será? O que seremos?

  1. A condição humana em uma narrativa sempre inspirada partindo de onde vem. Nos oferece no fechamento uma oportunidade de nos olharmos no espelho, se for possível, encontrando alguma coisa para orientar o caminho, ou ainda, como alternativa avançar no “deixar-o-mundo-me-levar”. A última é a mais fácil, confortável e segura pois reúne a maioria dos sapiens em um grupo onde a forma do conjunto tenta proteger os seus dos inúmeros “predadores”. A primeira exige muito e no geral é encaminhada solitária a um preço muito alto inclusive com muitas rupturas. Valeu Vera! Sucesso!!

  2. Recebemos, hoje, como presente, um texto denso, debruçado sobre várias vertentes: a condição humana, os desastres ecológicos, a política ou a propaganda governamental, o covid-19… Talvez possamos resumir essas vertentes na constatação de que «a morte anda solta, ávida, batendo as asas da destruição». Sim, mas tanto os desastres ecológicos, como a pandemia, ou os desmandos políticos, possuem uma só origem: a ação, irresponsável e tenebrosa, do Homem. Não diria, contudo, que «estamos todos num mesmo barco»; estamos, sim, nas mesmas águas, mas em barcos diferentes, tão diferentes como uma canoa e um transatlântico. O que importa, contudo, é a esperança, latente no texto, de que o ser humano possa finalmente evoluir e a deixar de lado o ramerrame dos ciclos históricos (a tarefa pode parecer inglória, mas quem sabe, um dia, em um futuro nem tão distante?).

  3. Então, querida amiga. Os avisos do planeta, reportagens dos desastres ambientais, ou disparidades sociais, e etc etc etc estão por aí, faz muito tempo, como vc mesma abriu seu texto. A lição sabemos de cor, só nos resta aprender. E para aprender, é preciso reconhecer que não se sabe ou sabemos pouco. É ter uma espécie de humildade, na falta de palavra mais apropriada. Mas essa atitude, infelizmente, vem de poucos. Tomara o bloco do “upgrade pessoal e social” se torne o maior ao longo desses tempos sombrios. Beijos

  4. Fui até o “Questão de Tempo”, parece que os

    desenhos do ano de 2020 vão aparecendo, e nada bem

    ao que parece. Tomara que pelo menos parte de nós

    consiga melhorar e beneficiar com melhores olhares

    e posturas o planeta e a vida de todas as

    criaturas nele.

  5. Vera, você nos convida a refletir sobre como caminhamos na vida em meio a tantos descalabros… Não é fácil… “Acidentes” que são crimes cometidos por grandes empresas, a pandemia que estamos vivendo, a não responsabilização pela Justiça dos culpados, num adiamento que parece eterno… Uma lista infindável…
    Lembrei do Gonzaguinha: Eu fico com a pureza das crianças, é bonita, é bonita e é bonita! Viver…
    É a alegria, a solidariedade, o amor que existe e nos dá força para caminhar e ser feliz, apesar dos pesares… Bj grande, parabéns pelo excelente texto!

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