Um Homem além da Quarentena, um pouco depois dos Sessentena

Nunca usou chapéu. Chapéu tem abas que o impedem de ver o céu. No céu tem anjos que batem asas nas vezes que ele sorri. Ou os anjos são conceitualmente muitos exigentes, ou ele sempre foi de sorrir pouco… mas de observar muito, escapando pelas feições a expressão dos seus pensamentos. Pensamentos refletem moral de conduta. Rígido. Sério. Correto. Homem de bem.

Rasgou o peito de cima a baixo, mas de certa forma trancou a alma no recôndito de si mesmo. Alma acidentada por sentimentos contidos. Lá dentro do corpo, a alma brincando no slackline vertical, percurso que vai do cérebro ao coração. Ora desequilibra ali, ora uma vertigem aqui… Mas não expõe em praça pública, jamais, as trovas das suas medievais saudades. Guarda em si tudo que cabe no seu mundo, lá de trás, quando talvez as coisas fossem bem melhores. E o melhor é ser feliz com a família que cresce e aparece dentro das molduras elegantes das suas emoções. E há amor transbordante. E há dor efervescente que a lenha do tempo queima, em lágrimas e na insensível sucessão dos dias. E o olhar endurece no quanto mais grisalho dos cabelos sempre aparados. Mesmo quando as preocupações não são capazes de se manterem apartadas. E o olhar se enternece nos netos que crescem e o fazem sonhar. Mesmo quando o futuro só cabe a cada um deles, em stricto sensu. Assim como coube a cada um dos filhos trilhar seus próprios desígnios. Renascer é seu destino, está no nome consagrado em batismo. Está cravado na pedra de tempos imemoriais. E não há água, por mais tenaz que seja, a lhe retocar no que se desenvolveu em elegância e em teimosia. Não há quem possa, não há o que possa…. Renascer sempre lhe caberá, tal qual um dever, porque assim constituiu seu ser.

Desde pequeno, determinado. Uma espécie de agrimensor, especialista em identificar nas linhas retas aquelas mais benfazejas para seus projetos de futuro. E foram cálculos precisos que nunca o desviaram de seus objetivos. Por profissão, o planeta. Ainda jovem e depois de maduro percorreu os continentes por ofício desde sempre perseverado. Conheceu o mundo iluminando os palcos mais distantes para que vaidades nacionais, mais vorazes, desenvolvam o jogo esperado da política dos bons costumes. Foram diferentes culturas que a dele se juntaram num balé internacional. Distante pátria, preenchida por sonhos que se mostraram, uma vez e nas demais, quimeras pulverizadas pela secura de um planalto que não se sabe cívico nem civilizado. E daí o homem, que nunca usou chapéu, pensa nas praias que lambem em espumas a criança que foi um dia… e o céu termina lá na frente, naquela linha úmida que se mistura ao mar. Necessário reconhecer que o mundo é pequeno e são muitos os que pretendem tê-lo subjugado. Então abre um livro recostado à poltrona naquela cidade famosa banhada por um rio famoso e passa em revista idades, cidades, vaidades, metades, verdades, vontades, amizades, validades, humanidades…. e adormece na simplicidade de quem sabe que a missão foi cumprida com a titularidade das boas intenções. E é o que basta para o compasso da vida. Que lhe seja leve, no máximo que souber resistir. Serena aragem no fim daquela tarde ensolarada da infância.

Carradas de amigos e conhecidos povoam o coração do homem que nunca usou chapéu. Há a gentileza estreitando os laços, trazendo para perto os afetos espalhados nos quatro cantos que se supõe conter no mundo. E são muitos. E são belos. E atravessam todas as luas e sobrevivem a quase todas as marés. Um amor discreto, com cheiro de alfazema, tinge de branco os cabelos, a barba e o bigode do homem compelido a sempre ver o céu.

Hoje, talvez sejam os anjos a sorrirem para que a felicidade dê asas ao homem sem chapéu.

Para RSM (em fraterno afeto)

 

7 thoughts on “Um Homem além da Quarentena, um pouco depois dos Sessentena

  1. Que lindo presente! Imensurável! E comovente!
    Simplesmente, obrigado – com todo o significado que essa palavra possui no idioma português: me sinto devedor, devedor por todas as graças recebidas, a começar por pertencer a uma família tão amorosa e terna! Isso é o principal na vida: o sentimento de pertença, a família. Sou, assim, abençoado.

  2. Uau! Que linda e merecida homenagem.
    Parabéns e muita felicidade, a esse homem que nunca usou chapéu e que o tenho e trato por amigo.

    Parabéns pelo belo relato, Vera.

  3. Parabéns ao Renascido que recebe esse belo texto! Essas palavras que a Verdade, com delicada concatenação e harmonia vasculha e remonta entre suas próprias lembranças. Contraponto do espelho que nela reflete essa inabilidade com chapéus. Afinal, quem vê o mundo não tem amabilidade para contornos definidos, simplesmente deixa que os cabelos estejam vulneráveis e soltos, mostra os fios brancos e permite a potência da cabeça que ali está… Conheço a Verdade e tenho certeza que ela também carrega a involuntária rejeição a chapéus porque sempre se permite renascer.

  4. Uma nova idade abençoada, tb, por esse registro de tão maravilhoso amor fraternal. Saúde e serenidade, Renato.

  5. Que lindo presente!!! Parabéns, Renato! Parabéns, Vera pelo texto, tão delicado, terno e poético! Obrigada por nos contagiar com esse espírito fraterno!

  6. Delicada declaração de amor fraterno e leal. Merecida homenagem a você, amigo querido,por quem tenho a mais profunda admiração e carinho.

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