Aprendizagem – ou Caderninho dos erros e acertos

Quando o telefone tocou não eram nem oito horas da manhã. Entendi que a situação era urgente: do outro lado da linha as palavras não fluíam com naturalidade e a respiração curta indicava que o ruim havia acontecido e que o pior poderia se estabelecer rapidamente. Vesti a primeira roupa que encontrei naquela parte do armário que reúne as autorizadas ao convívio social , engoli o café sem a dose necessária de açúcar, peguei as chaves e rompi o isolamento atravessando ruas, avenidas, túneis, viadutos, bairros, até chegar no endereço da voz que falava em sílabas entrecortadas de vazios pela falta de ar que estufava o peito em intervalos muito pequenos. No meio do caminho me dei conta que havia esquecido a máscara em casa. Parei no camelô e comprei, sem sair do carro, umas doze máscaras de pano vagabundo, talvez querendo tardiamente interromper o que já estava posto e sem a menor possibilidade de retroceder a sentença dos fatos.

Demorou algum tempo para que a porta fosse aberta. E bastou nossos olhares se encontrarem para ter que ampará-lo em meus braços, ali mesmo na ombreira da porta que separava o social do privado. Arrastei-o para dentro, o coloquei sentado no sofá. Cocei a cabeça com os olhos escancarados. Eu era a personificação irretocável da aflição. Depois acrescentei à aflição dosagens fortes de angústia. Fiquei algum tempo sem mencionar um único som e olhando o amigo sem reconhecer nele as características físicas que o distinguiram nos mais de trinta anos de convivência. O que era forte, quase atlético, saudável por todos os poros, se apresentava na minha frente abatido por enormes olheiras azuladas e por uma debilidade que não conseguia sustentar os seus oitenta quilos distribuídos harmoniosamente pelos metro e oitenta e cinco que sempre chamavam atenção pela agradável impressão a sua passagem.

Sem me recompor do susto consegui comunicar que iríamos imediatamente para o hospital. Onde a carteira do plano de saúde? Onde uma bolsa qualquer para colocar alguns itens necessários à hospitalização? Não poderia me esquecer do telefone celular dele, nem de manter comigo as chaves da casa na eventualidade de precisar voltar para renovar ou acrescentar itens ao enxoval, já que o atabalhoado do momento não me permitia ser perfeito. Meu amigo fez um gesto na minha direção, me segurou pelo antebraço e me direcionou a sentar ao lado dele no sofá: Não tenho plano de saúde e não quero ir a nenhum hospital. Hein?, foi o que consegui verbalizar quase sussurrando de espanto. Ele foi bem claro apesar do fôlego ser quase nenhum: Não quero ir para nenhum hospital. Não quero morrer sozinho rodeado por máquinas que emitem sons em duas vibrações: um sincopado que indica vida e outro contínuo que permite que a minha vaga seja ocupada pelo próximo infeliz. E, além do que, os uniformes revesam rostos quase totalmente cobertos que não me permitem saber que nomes têm, e sem intimidade mínima não passam de robôs apressados que só fazem agitar a morte sem nenhuma possibilidade dela ser suave, quase doce. Mas… balbuciei, acho que você não está pensando com discernimento. Não nos vemos só fazem vinte dias em função do isolamento social. Por que você se deixou ficar neste estado sem ter me chamado antes? Sem dúvida você passou por todos os estágios vastamente divulgados: coriza, tosse seca, dor de garganta, dor no corpo, inapetência, febre… Falei isso e estendi minha mão para a testa do amigo: podia fritar um ovo naquela temperatura. Ele fechou os olhos visivelmente exausto pelo ritmo da tosse contínua provocada pelo esforço da fala. Me levantei. Girei em torno de mim mesmo tentando decidir o que me cabia fazer na situação. Fui até a cozinha, lá não havia vestígio de quando uma última refeição tinha sido preparada. Tudo limpinho, todos os utensílios habitando os lugares a que se destinavam. Apenas um copo largado sobre a pia quebrava o ordenamento natural de uma cozinha zelosamente preservada. Fiquei parado segurando o copo, olhando o fundo brilhante da pia de aço inox, sem saber o que fazer.

Num filme, me vieram imagens que em retrospectiva tentavam dar sentido ao que eu não conseguia compreender. Procurava indícios no comportamento de uma vida que justificassem aquela reação do meu amigo. Mas não há vestígios possíveis de serem detectados quando a imprevisibilidade se impõe num jogo perverso e ameaçador de se andar sobre um fio desencapado que de uma hora para outra pode ser ligado à tomada. Lembrei do pré-vestibular de quando nos conhecemos, depois a faculdade, os bares e festas compartilhados, as namoradas, as paixões, tínhamos sido poupados da aids apesar de alguns comportamentos desviantes, doença nenhuma salvo algumas gripes curadas à base de muito limão e vodca. Nenhuma internação, nenhuma operação cirúrgica depois dos dezoito anos quando arrancou os sisos sem maiores traumas. Agora estava ali, gravemente depauperado, fincado num sofá, sem forças para se levantar, sem forças para falar, mas resolvido a tomar pulso da própria vida mesmo quando a sua pulsação cardíaca se encontrava visivelmente comprometida. Eu tinha duas opções: arrastá-lo contra a vontade para um hospital ou fazer parte de um enredo que por não haver privação óbvia de sentido ele escolhera para si. E esse escolher para si ganhava contornos de egoísmo na medida que me lançava para dentro do rodamoinho do contágio, mas também me distinguia com algumas pinceladas de honraria por ter sido eu o único a quem ele procurara para vivenciar um milagre ou um desfecho muito previsível. Voltei para a sala, me sentei no sofá e fiquei olhando para ele alguns minutos intermináveis, me decidindo por qual botão apertar.

A minha decisão levou em consideração a convivência que não se resumia em meia hora, levou em conta a cumplicidade que nos livrou de muitas catástrofes, levou em conta o que eu sabia dele e todas as expectativas criadas sendo que quase nunca elas se confrontaram com a decepção, levou em conta a pessoa que ele sempre foi e a pessoa que aquela situação me permitia saber de mim mesmo.

Cresci quando tinha mais de quarenta anos e o telefone tocou antes das oito da manhã.

 Texto mediocremente inspirado no livro “O Tribunal da Quinta-feira” de Michel Laub.

4 thoughts on “Aprendizagem – ou Caderninho dos erros e acertos

  1. Nossa! Tuas palavras carregaram-me à mesma angústia sem saída que a fictícia situação se colocava. Cresci no instante em que as últimas sentenças empurraram-me a desvelar que, entre vigília e vida onírica, se confundem ao descortinar que uma e outra são peças de uma condução imaginativa. Amo quando bons textos deixam-me frente a frente com a capacidade de me entregar a uma boa narrativa. Apesar de denso, é leve saber que há humanos respeitáveis ao ponto de compreenderem que só foi um pedido por boa campainha, não voltado a carregar o que não pertence a ninguém mais: a decisão por deixar morrer.

  2. Que texto interessante!
    Trata-se de matéria que se debruça, ainda que rapidamente, em forma de pinceladas a serem descobertas pela leitura, sobre vários aspectos da convivência/vivência humana: o susto, o medo, a eutanásia, o suicídio, a amizade, a escolha, a decisão… E, sempre, de forma a prender a atenção do leitor, que lê o texto de um fôlego só!
    E assim fica patente, mais uma vez, o seguinte testemunho: nem tudo que tem sido provocado por esse vírus antipático – para dizer o menos – é ruim! O meio ambiente tem agradecido – e os leitores desse Blog também agradecem!

  3. Vera, esse texto nos absorve, de repente sou levada como se fosse uma onda… É o que estamos vivendo nesse nosso cotidiano… E nos faz entender o dilema, a amizade e solidariedade dessa amiga convocada nessa situação tão difícil… e possível… Bj grande

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