Os porquês da vida, arte e morte

GritoO Grito – Edvard Munch

O quadro tornou-se um ícone do movimento expressionista. Retrata uma figura andrógina num momento de profunda angústia e desespero existencial, ao pôr do sol em uma doca de Oslo. Foi assim que o pintor noruegês Edvard Munch entrou para a história.

Logo após a divulgação da tragédia, numa investigação emocional inútil – daquelas que tendemos a percorrer numa busca de explicações para fatos que se preservam de todas as maneiras – foi encontrado no painel de recados sobre sua mesa de trabalho uma reprodução reduzida e fotocopiada do “O Grito”. Estávamos no ano 2000, primeiro ano de uma década que traria registros contundentes da grande inutilidade de muitos sentimentos. No dia 10 de outubro, quando seu corpo, por inteiro, se fez adubo para muitas possibilidades de frutos, estava cauterizada de forma definitiva uma vida.

Ficou o sentido do quadro. Este sentido só foi entendido depois que mais nada podia ser feito.  E até hoje  se mantém  como pano de fundo daquela despedida sutilmente anunciada. As elegantes palavras, os gestos medidos, a tensão constante no movimento do corpo, agiam sorrateiramente eliminando, gentilmente, qualquer possibilidade da vida seguir um curso natural. Natural, aqui bem entendido, na gama de contradições que permitem vibrar  o balé dialético do equilíbrio. Foi embora porque respeitou a coerência de apenas um lado….

Conheci ele muitos anos antes: primeiro emprego dele, segundo emprego meu. Fugíamos sempre que podíamos para conversar sobre filosofia, existência, eu ouvia seus sonhos de ser famoso e rico ao ponto de ter uma lancha e navegar  pelos sete mares. Eu sorria perguntando porque a lancha era o símbolo de riqueza e ele ria dizendo que não havia nada mais inútil do que se ter uma lancha… Depois fomos embora e nos encontramos alguns anos depois, pela mesma coincidência de destinos, em um outro emprego, por mero capricho dos nossos caminhos. Neste segundo encontro ainda existia nele uma certa espontaneidade na sempre ácida crítica ao mundo e a si mesmo. Nosso terceiro e definitivo encontro não foi casual: a convite dele mudei de cidade e nela permaneço até hoje. Já então era perceptível a opacidade no olhar, os gestos forçadamente impostos à noção do socialmente correto, a quantidade de pílulas que o submetiam à euforia ou à depressão. Preferíamos, comodamente, considerá-lo apenas um excêntrico e esta consideração era o reconhecimento do brilhantismo dos seus argumentos e da sua construção lógica. Inteligente ao ponto de lentamente ir se despedindo da vida sem deixar vestígios no entendimento das pessoas.

Foi num final de semana ao Rio e neste intervalo de tempo lavrou a sentença de indignação e saudade que se instalaram em mim. Cuidadosamente vedou as frestas do seu apartamento em Botafogo, arrumou sobre a cama seu terno, seu sapato, tomou banho e em vez de preparar o café da manhã para seguir ao aeroporto que o traria de volta a Brasília, deixou o gesto pela metade: acionou apenas o gás, sem nenhum interesse pelo fogo ou pelo café da manhã.

Muitas coincidências nos aproximaram e outras tantas em muitas ocasiões nos afastaram. Todas as vezes que vejo o quadro, sou eu ali, caminhando quase prazerosamente junto à imensa liberdade que só o mar transmite sem me dar conta da tragédia do sol: profusão de côres emitidas em protesto à sua obrigação de morrer todos os dias. Caminhando, apenas caminhando entre o sentir e o sem sentido de tudo. Apenas um drama para a tragédia que acontecia na minha frente sem que eu percebesse….

Em memória a José Stalin Pedrosa

 

7 Comentários até agora.

  1. Tania disse:

    Lembro dele, sem nunca o ter conhecido pessoalmente. Precisos, quadro e palavras. Dizer, entender mais o quê?

  2. Daniele disse:

    Também eu costumava me perguntar tanto os porquês da vida e da arte. Os da morte indagava menos. Fingia tão bem que achava a morte uma coisa calma, que talvez até acreditasse nisso mesmo, como o Pessoa explicou que a gente costuma fazer.
    Até que me arrisquei a perguntar menos os porquês e mais os comos. Como seguir em meio a tudo isso. Em meio a tanta névoa e tanta culpa.
    Queria um barco para desligar o motor no meio da água e só sentir as ondas. Ouvir o mistério.
    Um abraço ;-)

  3. Fernanda Pedrosa disse:

    Lindo o seu texto. O Stalin Pedrosa era meu tio e padrinho. Pena não ter conhecido muito ele por ser muito nova. Mas hoje fui na casa de minha avó e trouxe para casa alguns livros dele, e vejo como ele era um homem inteligente.

    Queria saber mais sobre ele, já que para minha familia esse assunto não é muito falado.

    Desde já agradeço e se possivel gostaria de manter contato por email. Abraços;

  4. [...] This post was mentioned on Twitter by Fernanda Pedrosa, Fernanda Pedrosa. Fernanda Pedrosa said: Você me inspira a ser melhor. http://www.vertigemdaspalavras.com.br/?p=382 [...]

  5. Maria Regina Cotrim Guimarães disse:

    Stalin deixou muitas saudades, a ponto de hoje ter digitado o nome dele no Google. Depois de seu trabalho servir de bibliografia para um texto sem comentários da TFP, encontrei o feliz contraponto. Achei de incrível perspicácia o texto da Vera Menezes e o quadro do grito. Perfeitas traduções das fases em que convivi com ele.
    Tenho alguns livros que ele me presenteou, assim como cartõezinhos e lembranças de viagens, além de fotografias, que me confrontam com frequência com a perda imensa que a morte dele representou.

  6. Marcos L Marques disse:

    Caros, fui amigo do Stalin. Foi meu padrinho de casamento e… Durante tantos anos com ele e outros amigos não tiramos uma foto. Resta o video de meu casamento que é muito terno preto e riso normal. Alguém pode me dar outro riso do Stalin além da memória?