Ali, mesmo sendo exatamente aqui….

 

Esta música de Gilberto Gil com letra de Caetano Veloso foi composta em 1993. Sempre a ouvi em primeiro plano, obrigando tudo o mais a se reconhecer à própria significância frente ao impacto que me causa. Uma espécie de purificação pela junção da acidez dos versos com a delicadeza que a melodia assume em determinados trechos.

Hoje o Haiti não é mais nada além de um punhado de gente, sem governo, sem futuro, sem esperança. Me pergunto: quais os níveis de esperança e futuro que algum dia o Haiti experimentou? Primeiro foi a colonização espanhola sucedida pela francesa. Proclamou a independência em 1801 e desde então não houve governante/ditador que pudesse garantir esperança e futuro ao povo. Somente em 1946 o povo teve direito a voto numa celebração de extraordinárias eleições duvidosas impregnadas de corrupção e miséria. Golpes militares de toda ordem com seus ditadores de visão mais primária que a própria economia do país que sobrevivia da exportação de açúcar, banana, leguminosas e afins. Metade da população é analfabeta e atingir os 60 anos de idade pura benção dos santos do catolicismo romano ou privilégio das práticas vodu. Como queiram e se quiserem alguma coisa…

Aí, quando tudo já era muito difícil, acontece o terremoto para que a convivência com o impossível se determine de uma maneira inimaginável, muito além da miséria, muito além da dor, muito além do mais nada a ter, mas sem nenhuma dúvida para transformar, reavaliar, redimensionar o ser. Impossível você se imaginar andando nas pontas dos pés por um tapete de cadáveres tentando identificar um parente? Impossível você se imaginar dormindo no meio da rua porque a sua casa deixou de existir de um instante para outro? Impossível você se imaginar vagando sem rumo, parando em ruínas a escolher, para tentar o milagre de identificar um sopro de vida em baixo de entulhos? Impossível você se imaginar na certeza absoluta de não ter o que comer, não ter o que beber, não ter o que fazer na perspectiva de sobreviver ao menos um dia? Pois é…. tudo isso já despencou da categoria do impossível e senta ao meu lado no sofá, em frente a televisão. Tudo isso senta a minha frente na mesa onde me sirvo da comida nem sempre fresca mas que me alimenta e fortalece para as resoluções do dia. Tudo isso encharca a minha vida enquanto o planeta e o sol giram, giram,  numa ingênua brincadeira infantil…

Então fica combinado assim: antes de reclamar de qualquer coisa, “pense no Haiti, reze pelo Haiti”. O Haiti devastado cresceu para além da ajuda humanitária: é uma estrêla invisível anexada a nossa bandeira, é o parque onde caminho nos dias de sol, é a chuva que cresce a grama, é a lente que fotografa a vida, é o muro que me protege, é a cachoeira alimentando a mata, é a festa, é a dança, é o abraço do tempo no cansaço do mundo….bem aqui.

 

Um Comentário até agora.

  1. Tania disse:

    Então… tão lá no inferno os Doc todos (papa e Baby) além dos Tonton da vida. Duro é ter que engolir tantos absurdso, pensados impossíveis. É sempre pior do que qq suposição.
    Vou te mandar um artigo super interessante sobre o Haiti.
    Beijo