• Fotos que agarraram o meu olhar

    Yevgeny Khaldei – história fotografada

    Era somente mais um dia de maio em Berlim. A chuva e o frio não mais surpreendiam, já que foram recorrentes ao longo daquele ano de 1945. Após seis anos de guerra com uma estimativa de 80 milhões de mortes, a água da chuva era uma maneira de matar a sede e o frio uma pálida noção de afeto, obrigando as pessoas a se abraçarem para que a quentura dos corpos os mantivesse vivos por mais tempo. Meu nome é Yevgeny Khaldei, fui fotógrafo do exército vermelho, portanto as lentes do meu oficio tenderam a valorizar o desempenho das forças soviéticas nesta II Guerra Mundial. Depois de algum tempo acompanhando…

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    Safári de si mesmo

    fotografia do blog www.photographyfotografia.blogspot.com Ficou olhando aquilo tudo a sua frente com certa irritação, um incômodo que afetava o humor. Havia caminhado quatro horas seguidas, só naquela manhã, e incontáveis dias por caminhos desconhecidos, áridos, desabitados, lidando com geografia seguida de geografia, para dar de frente com aquela provocação em forma de cordilheira. Iniciara a peregrinação para se afirmar como pessoa, para descobrir a sua importância. Dias e dias, meses arrastados pela exclusividade dos sons da natureza e ainda não aprendera a linguagem dos ventos e não conseguira considerar-se superior às montanhas, nem sequer às tímidas e exóticas germinações, quase imperceptíveis, que enfrentavam um solo arenoso se impondo à vida.…

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    Viver é tão impreciso…

    Foto: Tânia Salgueiro-Fev 2011 Impossível dizer alguma coisa. Seria inútil tentar traduzir o outono espalhado na paisagem. Deixei assim, que a geografia descansasse nos meus olhos as últimas carícias da luz. Minha intimidade com as nuvens se dava a uns 10 mil metros de altura, hóspede na casa dos sonhos, as inseguranças agora se concentravam em se ter os pés no chão. Lá em cima a perspectiva da vida transgredia em extensão. Em poucos minutos estaria no plano inverso, lidando com espaços fragmentados, me esgueirando nos intervalos das formas que se multiplicam a cada passo, ricocheteando meus pensamentos nos estímulos que se revezam nas viradas dos minutos, meu olhar obstruído…

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    Os pés no céu

    http://pharaonx.blogspot.com (fonte da foto) Bom dia tristeza. Sirvo café para a saudade. Corto o pão para a nostalgia: compartilhamos migalhas e pensamentos. Repasso, passo a passo, todos os cômodos tentando aprender a ler o sentido das estruturas que não se expõem ao abraço da chuva. Mobílias que revestem uma das minhas peles de existir. O cansaço cobre com uma fina camada de poeira os contornos, embaça a imagem no espelho, confunde formas na minha visão. Atravessando corredores, abrindo portas, desbravando gavetas, em tudo a voz de pai-e-mãe nos gestos do menino e da menina que diminuíam sem alarde, enquanto o universo crescia sem ostentação, vida adentro. Coisinhas pequenas (um quadro…

  • Fotos que agarraram o meu olhar

    Caminhos caminhados e a caminhar

    Fonte: photographyfotografia.blogspot.com Naquele ponto exato, a visão embaçada conseguia perceber os pedaços de tantos muitos destinos e a fina névoa que roçava as montanhas numa escalada, sem esforço, para atingir a altura plana do definitivo azul. Tirei as pesadas botinas e bati meus pés no chão rochoso. Foi preciso confirmar que era real a paisagem que inundava a minha alma. E a realidade era o peso do corpo arranhando os meus pés a cada passo inseguro naquele relevo irregular. Um sorriso largado no mundo foi o que de melhor pude oferecer frente à visão inesperada depois de tantas horas caminhando. O absoluto estava instalado. Por onde Andes no sul dessa…

  • Fotos que agarraram o meu olhar

    Nas vezes em que aqui me aconchego

    No primeiro olhar consegui identificar algumas montanhas,  um mar e o céu cobrindo todo o relêvo exuberante em azul.  O primeiro olhar, aprendi há muito tempo, é sempre importante porque traz em si a armadilha da meia verdade. Mas verdade inteira não consegui encontrar até hoje…. Depois fiquei olhando a fotografia e me dei conta que tudo é uma coisa só, chamada céu. Sempre me confundi entre o céu e o mar, e nunca respeitei a possibilidade de terem identidades próprias. Ambos parecem ter sido criados para facilitar ainda mais a tendência natural que tenho de me perder: quando olho o céu, as nuvens me hipnotizam e me atiro sem…