Sentimentos acontecem dos fatos

Informações e a minha perplexidade

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Pela manhã fui a uma loja de materiais de construção adquirir produtos necessários à manutenção da casa. Na dúvida sobre o tamanho relacionado ao ralo de ferro a ser comprado, o gentil vendedor me levou ao estoque para decidir dentre os disponíveis. Olhei, imaginei o resultado e terminei optando por um menor que o inicialmente solicitado. Ainda compartilhei com o vendedor a vantagem de um ralo menor: evitar o indesejável assédio das baratas que adoram incursões tubulares, inadvertidas sobre a impossibilidade de qualquer espécie de convivência entre nós. Foi aí que o vendedor tentou desfazer o raciocínio lógico que determinou a minha decisão: “Não adianta. As baratas nadam muito bem e não se intimidam com relação aos espaços disponíveis. Antes eu trabalhava nesse ramo e fiz muitas palestras sobre esse inseto ortóptero de hábitos noturnos”. Olhei para ele de forma inquisitiva: seria um gracejo? será que ele se levava a sério? Ele permanecia impassível, o que me exigiu cuidado na abordagem: “Você trabalhou no ramo de dedetização?”, perguntei. Imediatamente ele respondeu afirmativamente e satisfeito com a minha manifestação de interesse. “As baratas ficam com as pernas para o alto com a finalidade de aliviar a agonia que sentem”.  Fiquei um longo tempo em silencio olhando para ele, imaginando as muitas experiências a que se dedicou para conseguir aquele brilho no olhar. Uma espécie de orgulho em estar me transmitindo aquelas informações que, sem nenhuma dúvida, significavam muito para ele. Saí da loja tentando atinar de que forma ele havia concluído o alívio das baratas ao se colocarem com as pernas para o ar …… O que eu poderia fazer com relação àquelas informações? Sem dúvida quando o ralo estiver instalado na varanda eu irei me lembrar desse vendedor, meio cientista, meio louco…..

Mas o dia estranho mal havia começado. Foi quando à noite recebi um correio eletrônico que afirmava que a amígdala era responsável pela memória emocional no ser humano. Amígdala?! Foi com certo desespero – motivado pela ignorância – que me dei conta que aos sete anos extirpei as minhas amígdalas e, segundo a informação recebida, a minha emoção havia, então, perdido a possibilidade de se manifestar. Alguma coisa, transcorridos alguns minutos de reflexão, não me parecia razoável: eu me emociono com uma facilidade inacreditável….. Será então que o fato de não ter amígdalas fez de mim uma desvairada emocional, sem nenhum órgão controlador? Recorri ao remetente do correio eletrônico que, talvez estupefato com a minha ignorância, esclareceu que amígdalas são grupos de neurônios que formam uma massa cinzenta de dois centímetros, situado no lobo temporal do cérebro. Segundo pesquisas científicas são tais grupos de neurônios que administram a emoção no ser humano. Entre aliviada e envergonhada dei curso a outros pensamentos que talvez os venha a publicar aqui.

Felizmente o dia de ontem terminou com a assimilação de outras informações menos surpreendentes. Fui dormir tarde com a imagem de um ralo disponibilizado a uma legião de baratas atletas e sensíveis, acompanhada do susto de um processo cirúrgico ter retirado de mim a emoção de viver. Existem dias assim que me deixam perplexa mesmo…

2 Comentários

  • Jandiara

    Excelente! Há muito eu não dava tantas gargalhadas como agora. Consegui imaginar as duas cenas com todos os detalhes. Uma pena não poder estar junto com vc nos dois momentos. Acho que ficaria com uma expressão bem mais perplexa do que vc. Beijos,

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