Aquele filme mexeu comigo

Direito de Amar

amar

Ganhei de duas amigas o DVD deste filme. O título original “A Single Man” atende melhor todas as sutilezas das cenas, cenários, sentidos… A direção de Tom Ford é primorosa nos detalhes visuais com que construiu a solidão em seus múltiplos aspectos, impregnados na alma de George (inteiramente coerente na brilhante interpretação de Colin Firth).

O motivo principal do filme poderia ser qualquer um porque em qualquer situação o personagem mais notável, levaria para qualquer história, sem esforço, o que ele entendia dele mesmo. O difícil era lidar com a vida sendo quem ele era. O fio condutor do filme é a reação de um homem ao perder seu companheiro num acidente de carro, após 16 anos de vida em comum. A situação trágica ajuda a exposição de algumas atitudes e, de alguma forma, as justifica.

É preciso cuidado ao lidar com pessoas que usam largas armações de óculos, independente de não mais vivermos em 1962. Essas pessoas provavelmente tendem a ver o mundo com maior peso e a realidade ficará acuada dentro das largas molduras, impedindo que o olhar se esparrame em novos e diferentes relevos. Cuidado também com aquelas pessoas que usam armações finas e pequenas nos óculos, mas insistem em afirmar que as armações mais largas descansam melhor a visão….

Me reconheci em muitos gestos do personagem, aliás em muitos silenciosos olhares que se detiveram em cenas e/ou objetos por longo tempo. Nestas ocasiões, por mais que o olhar desejasse captar o sentido das coisas, a vida escapa das formas, dos contornos, e o vazio vai ganhando os espaços e endurecendo visão e alma.

O personagem, exibindo para todos uma tranqüilidade aparente, mantendo a sua vida no controle aos olhos do mundo, minuciosamente iniciou um cuidadoso planejamento, organizando meticulosamente a sua morte. Curiosamente muitas providências ordenadas em função de sua morte, coincidem com aquelas que empreendo para dar curso a minha vida: a roupa que seleciono para as tarefas do dia seguinte, os bilhetes que distribuo na  porta da geladeira e escrevo na agenda para que a memória não me engane…

Ao tempo em que vai ordenando todas as tarefas que as pessoas deverão executar para que até a sua morte permaneça sob seu controle, ele se recorda, em flashes, as histórias de sua vida: as pequenas alegrias e as grandes emoções que o levaram até ali. E essas lembranças produzem uma inversão na maneira de desentender o mundo, a vida…

A ironia do destino brincando com o personagem permite que o espectador, ao final do filme, suspenda a respiração por alguns segundos e esboce um daqueles sorrisos entre atônito e incrédulo pelos acontecimentos impossíveis de serem controlados.

Quem quiser buscar o sentido da vida terá que ter suficiente habilidade para reconhecer que tudo é muito imprevisível e a inutilidade é a pele que reveste a sucessão dos dias…

 

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