Sentimentos acontecem dos fatos

Dessas coisas que vão embora para sempre…

cafeteira

Olhou desconfiado acompanhando a manobra do carro que estacionava em frente a sua loja. Ele estava na porta conversando com outros três, ou quatro, que se dedicavam a supervisionar o passar do tempo. Do carro saiu uma senhora carregando uma cafeteira nas mãos. A senhora olhou para uma loja cheia de máquinas de lavar e geladeiras, depois olhou para a loja do homem-desconfiado: optou pela desconfiança do olhar, sem compreender muito bem porque agia assim.

– Vocês consertam cafeteira?
– Sim

E o homem-desconfiado pegou a cafeteira das mãos da senhora e a levou para o balcão de madeira: começou a abrir o aparelho.

Enquanto isso a senhora observava o ambiente: um poster de mulher com biquíni era destaque na única parede que não estava coberta por estantes, caixas, hélices de ventiladores, peças de liquidificador. Deu uma vontade instintiva de arrumar aquilo tudo e tirar o excesso de pó e graxa que a tudo revestia numa espécie de condição para que tudo aquilo existisse. Conteve o seu impulso de mulher e se deteve no trabalho que o homem-desconfiado fazia. Pediu para ver as intimidades da cafeteira: lá estava uma engenhosa associação de fios e peças que retratavam o moderno mistério de se tomar um café fresquinho.

O homem-desconfiado achou por bem apontar para a peça mais importante e esclarecer: “Esta é a resistência!”. A senhora fez uma cara de quem, enfim, havia sido iniciada no mundo da eletricidade. Afinal, havia tanta solenidade e condescendência na afirmação do homem-desconfiado que não seria ela a estragar uma revelação que alguém lhe oferecia, mesmo que ultrapassada pela capacidade dedutiva que ainda exercia. A resistência da máquina estava boa. O problema não era com ela. A senhora ainda pensou que nesses assuntos de resistência, a dela não teria muita continuidade se ficasse muito tempo ali, em pé, rodeada de poeira, graxa e um sem fim de peças, enquanto o homem-desconfiado decifrava a cafeteira.

Resolveu puxar conversa: “O senhor se importa se eu ficar olhando o trabalho?” Frente a uma resposta acolhedora, ela ficou observando o cortar de fios e o testar dos mesmos num aparelhinho simpático que ao receber energia movimentava um ponteiro magrinho com a velocidade permitida pela intensidade da carga elétrica. Testa daqui, testa dali, foi com satisfação de menino quando faz um gol que o problema foi identificado: “É essa peça aqui que não está funcionando”. A senhora simplesmente disse: “E agora? O senhor tem essa peça? Ela é tão pequenininha, mas definitivamente poderosa…” O homem não disse nada. Levantou-se da bancada e foi buscar uma caixa grande, de papelão, numa das prateleiras das muitas estantes do ambiente. Revira, mexe, cata, tira, põe, e pronto! Achou uma peça semelhante a que não funcionava. Quando tudo parecia resolvido, veio a notícia triste: “Poxa, quebrei a peça tentando conectar o fio nela”. A senhora olhou para o homem-desconfiado decepcionada com a hipótese de não poder fazer um café quando chegasse em casa. O homem-desconfiado olhou à direita, olhou à esquerda, inconformado, procurando uma solução inspirado na bancada de madeira cheia de graxa e cacarecos. Tomou uma decisão: cortou fios daqui, cortou fios dali, depois juntou fios a outros fios com recurso da fita isolante, e foi para o teste final. “Onde é que se coloca a água?”. A senhora olhou silenciosamente espantada, pensando: “Nossa… ele consertou a cafeteira sem saber usar uma cafeteira…”. Mostrou o local onde em qualquer cafeteira do universo a água é colocada. O homem-desconfiado foi para outro cômodo – supostamente o banheiro – e saiu de lá com a cafeteira pronta para ser posta à prova na sua funcionalidade. Um pressionar de botão e todos os sons foram reconhecidos pela senhora: um sinal sonoro do retorno à ativa da velha companheira que a ajudava a inaugurar todas as manhãs.

Sorria o homem-desconfiado de um lado; sorria a senhora de outro. No meio, a máquina reanimada de uma falência temporária, se pudesse também teria esboçado um sorriso por aquela vitória que reuniu habilidade e desejo num único objetivo. Ao menos assim tudo parecia…

A senhora pagou alegre a recuperação da máquina e quando estava prestes a sair, o homem-desconfiado fez uma observação inesperada: “Qual a quantidade de café que é feito na máquina? Ela fica ligada o dia todo?” A senhora ficou na dúvida quanto à resposta: “Geralmente eu faço uma quantidade de café e vou bebendo aos poucos durante boa parte do dia…” O olhar preocupado do homem-desconfiado fez com que a senhora buscasse uma alternativa que pudesse amenizar a inquietação do homem-desconfiado: “Acho que o ideal é fazer o café na cafeteira e transferir para uma garrafa térmica…”. Efeito imediato: o homem-desconfiado relaxou o olhar e a tensão do corpo: “É melhor fazer assim para não forçar a resistência”.

Quando chegou em casa, a primeira coisa que a senhora providenciou foi um cafezinho na cafeteira submetida àquela espécie de ressurreição. Colocou a água, o pó de café, e ligou a cafeteira enquanto arrumava pequenos detalhes que dona de casa sempre encontra. Quando retornou à cozinha, o susto: o café estava coado, mas da cafeteira saia uma fumaça tão nova quanto a novidade da máquina estar funcionando. A senhora rapidamente transferiu o café para uma garrafa térmica e, recomendada pela prudência, decidiu que uma nova cafeteira era a melhor providência para não ter que consertar uma casa incendiada.

Existem coisas nessa vida que não compensam o tempo empregado na tentativa de um resgate… Cafeteira é uma delas. Mas existem despedidas mais sutis, que se arrastam até entendermos a inutilidade de se identificar quais os fios ou peças desgastadas. Demoramos um pouco mais para conseguirmos colocar um sorriso no tempo que cada coisa dispõe na experiência do “para sempre”…

Um comentário

  • Tania

    Ah…. é isso mesmo. Tem coisas que vão para sempre, sem direito a recorrências…rs. Aliás, os japoneses são mestres em ensinar isso. É verão? Dispõem edredons e mantas nas ruas, para o lixeiro. Entram ventiladores e roupas frescas. Rotina inversa quando este finda. Temos que aprender as estações das coisas. Beijo

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *