Sentimentos acontecem dos fatos

Escalada

favela

Desde quando sorrir é ser feliz?

Cantar nunca foi só de alegria,

Em tempo ruim todo mundo também dá bom dia

Gonzaguinha

Subia a ladeira. Os pés doíam e a respiração escapava. Sobrava corpo e faltava alma: uma clássica constatação que o tempo respeita a si mesmo, com exclusividade. A ameaça de chuva e os olhos embaçados de suor arrematavam a idéia que tivera ao acordar: subir o morro e ver a cidade lá do alto e pelas lentes da máquina fotográfica. E assim, no final da tarde e da vida, ele subia ladeiras que terminavam em outras ladeiras num sem conta de pedras, degraus, rampas, vielas, becos, roupas coloridas que passavam por ele, sandálias de dedo gastas que ajudavam os corpos a se deslocarem nas rotas estreitas que desconheciam a calma noção com que uma planície conforta o corpo. Às vezes se surpreendia com algumas cenas, sobretudo aquelas dos meninos sem camisa empinando pipas sobre as lajes e que o faziam sentir criança no desvairado descompasso da sua imaginação cansada.

Por mais de três horas, sem interromper os caminhos da determinação, ele apenas se dedicava a transpor a geografia íngreme, inexata, colorida pela pobreza e desafiada pela sobrevivência. Uma atividade suspeita quando os que ali viviam queriam partir: só podiam desconfiar daquele obstinado, ingênuo ou inconsequente, resoluto na tarefa de entrar. O primeiro susto foi na curva à direita que lhe deixou de frente com uns cinco adolescentes bem armados, brilhantes fuzis atravessados no peito. Intimado a tomar outra direção, enxotado pelos gestos curtos e tensos das armas apontadas e das palavras violentas que bem traduziam o ódio chispado dos olhares. Teve medo que lhe arrancassem a máquina fotográfica, mas nem a mochila eles revistaram, surpresos que estavam por aquele encontro inteiramente sem propósito: eles disparavam a mesma pergunta, incrédulos que um idiota do asfalto pudesse subir sozinho o morro: “Qual é pleibói? Que que o tio tá fazendo nessas paradas? Quer morrer? Tá fazendo o que aqui?” O idiota persistente repetia que apenas queria subir e ver a cidade. Apenas subir e ver a cidade…

Nessa caminhada para cima, outros sustos de natureza diferente aconteciam: a barriga grande amparada por pés descalços que mal aprenderam a andar, descrevia um preciso conceito de oscilação; sorrindo, o menino barrigudo resgatava do esgoto a céu aberto a chupeta que toda vez caia quando ele oferecia um sorriso para o mundo. Também teve que lidar com o desconforto de ser verbalmente admoestado e visualmente acompanhado por alguns habitantes que além de medi-lo de cima a baixo, insistiam em identificá-lo, impropriamente, por “playboy”. Também cruzou com uns rapazes nervosos que olhavam em todas as direções, e ao mesmo tempo que escondiam, ofereciam drogas por uns apelidos que ele não identificava, tantos os nomes e preços. E ele seguia, entorpecido, pelos caminhos que apontavam o céu. Azul, a ameaça de chuva já não mais existia e o calor lhe dava uma sensação estranha de estar vivendo o limite de sua própria resistência.

Quando chegou ao topo as luzes do dia se despediam e do mar uma brisa tímida parecia ser a recompensa do esforço. Esforço inútil já que a claridade fugia suavemente da possibilidade de qualquer fotografia. Ele riu e ficou olhando o resultado de ter amanhecido com uma idéia e a determinação em executá-la: a cidade sob seus pés num ângulo pouco conhecido, alcançada por situações que não aconteciam no comum dos seus dias.

Quando virou as costas para o mar, resignado a encarar o caminho de volta, se assustou com o mar de luzes que escorria pela encosta. Ficou ali hipnotizado: maravilhado pela beleza improvisada das luzes desordenadas mapeando a geografia de milhares de vidas. Ficou ali, sentado no topo do mundo que lhe era oferecido. Não entendia nada do que se passava com ele: uma grande alegria pela visão da plasticidade do cenário e uma profunda angústia que chegava indecifrável trazida nos sons da noite.

Viver é assim mesmo: seguir em frente escalando as alegrias e as tristezas, sabendo desnecessária qualquer possibilidade de entendimento.

2 Comentários

  • Tania

    Bem a cara de todo e qualquer carioca. Que ama essa cidade e que admite que somente um outro carioca possa dela se queixar. Bem a cara da carioca russa Clarice: viver ultrapassa qualquer compreensão. Beijo!

  • Jandiara

    Não concordo, não. Viver é se deixar surpreender e se maravilhar com o que aparece num simples virar de corpo. Beijos

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