Sentimentos acontecem dos fatos

Esses rótulos fabricados

A diferença incomoda. Ter que lidar com o diferente é confrontar os padrões que sustentam a nossa existência. O grande e perigoso risco é pressupor de maior importância aqueles padrões que nos amparam frente aqueles que desconhecemos ou aqueles que não conseguimos adotar. As grandes evoluções, os grandes avanços sociais e científicos, não são conquistas dos padrões ordinários: surgiram a partir daqueles que souberam “fazer a diferença”. Ser diferente é assumir de forma irrestrita a solidão de ser um incômodo e se alimentar dessa circunstância para atingir o que nem sempre se sabe aonde buscar.

O que assusta é a tendência de incompatibilidade que as diferenças promovem. São ameaças para as nossas confortáveis aceitações de como interagir com o mundo. As principais vítimas são as crianças que ao romperem as expectativas de pais e professores, engrossam as filas nos consultórios dos psicólogos e psiquiatras. Impõem-se por via medicamentosa a restrição de talentos em nome de uma “normalidade” determinada por interesses que não ousam transgredir seus próprios valores. Que o diferente assusta pelo fato de trazer com ele a novidade é bastante compreensível, o inadmissível é supor que as percepções que se estabelecem por uma ótica diferenciada da nossa devem ser suprimidas, eliminadas, rejeitadas. Crueldade maior quando a ascendência de pais e professores é legitimada para a readequação dos padrões de comportamentos em crianças cuja criatividade se dá numa perspectiva de interesse que rompe com o previsível.

Padrões diferenciados exigem atenção especial e a educação nesses casos privilegia o seu fundamento mais básico: a conversa. Ora, vivemos um mundo tecnológico cuja velocidade é impossível acompanhar: sobram filhos em frente à televisão, desenvolvem-se habilidades motoras nos jogos eletrônicos de sobrevivência, as refeições rápidas impedem o ultrapassado “almoço em família”, o tempo é curto, a paciência é pouca, as dúvidas são sanadas pelo “babalorixá virtual, Pai Google da Aruanda” (como recentemente Roberto Rabat Chame definiu), os filhos crescem sem que os olhares de pais e filhos se encontrem… Um dia os pais e os filhos se esbarram e se desconhecem. Surgem os consultórios médicos onde os filhos podem finalmente conversar, desde que saiam convertidos aos padrões dos que pagam o tratamento.

Viva a diferença! Afinal não existem duas pessoas iguais neste mundo. E quando as diferenças não põem em risco a vida humana, sinto muito, mas nos obrigam a reavaliar tudo que somos e tudo que não conseguimos ser. Olhar para o diferente reconhecendo no outro o mesmo direito que reconhecemos em nós com relação às nossas diferenças, é substituir pré-julgamentos sentenciados pela nossa área de conforto, para permitir uma análise isenta sobre novos valores, novos conceitos, que poderão reafirmar ou redimensionar velhos padrões.

Afastem de nós os medos que nos deram a medida do que somos. Que seja preservada em nós a ousadia de querer ir além.

Um comentário

  • Tania

    Caramba… tudo a ver. Penso que necessitamos enquadrar para reconhecer e conseguirmos nos relacionar. Muito oportuno nesses dias modernosos da globalização. bjs

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