Sentimentos acontecem dos fatos

Sutil Nostalgia

rabanadas

Talvez tenha sido a surpresa de saber que novembro está chegando… Ainda há pouco era janeiro e havia uma certa excitação em imaginar que o ano seria diferente e mais realizável.  O que foi feito de tantos meses? Não houve nenhuma revolução na sequência monótona dos dias. Estou sentada na mesma posição de quando o ano inaugurou e percebo que o vento (mesmo que alguns tenham sido quase violentos) não mudaram os fatos, mas também não alteraram as minhas expectativas. Então estou aqui, olhando as árvores que cumpriram o ciclo das estações com menor ou maior intensidade, e sinto um certo desperdício com relação ao que não consegui realizar em respeito a mim mesma.

Nessas ocasiões em que a alma parece oscilar entre a realidade e o desejo, a memória me leva para perto das pessoas que se tornaram impossíveis. Amigos que foram sacudidos da árvore da vida e devorados pelo tempo. Gosto, cor, cheiro e forma se mantém apenas enquanto a lembrança não me trair. E eles vão chegando nos pequenos detalhes de quando a convivência cabia na distância dos nossos abraços. De tantas particularidades, elejo as rabanadas para passear a minha nostalgia, que nada mais é que uma saudade sem esperança.

Recebi rabanadas via Sedex por alguns anos. Sempre foram o presente preferido. Elas vinham embrulhadas no carinho de quem queria romper a distância geográfica e compartilhar um momento muito mais saboroso quando aceso o sentido de família. As rabanadas sempre cumpriram este propósito. Era pegar o telefone e em DDD acusar o recebimento do Natal, de confirmar o prazer de abrir a porta do coração para deixar que o afeto desfizesse a dificuldade da distância.

O primeiro sinal que o tempo nunca deve ser desperdiçado veio quando uma greve dos correios atrasou a entrega do meu Natal. Quando me chegaram, as rabanadas já não mais serviam ao gosto da festa. Rabanadas e Natal são frágeis em muitos aspectos.

O segundo sinal da incompreensão que tenho com relação ao tempo, foi mais implacável: levou para nunca mais quem se debruçava no fogão e delicadamente me oferecia o significado do Natal. Corri para me despedir dela, mas coisas inúteis, sem nenhuma importância, atrapalharam a minha velocidade e cheguei quando o tempo já se chamava impossibilidade.

Assim, de janeiro a novembro, me sabendo na mesma posição na vida, algumas lembranças me visitam e sussuram que o tempo desperdiçado nunca mais será recuperado. Encurralada e cansada, sei que não quero um novo ano irrealizável. Bastam rabanadas e Natais desperdiçados. A vida, por frágil e breve, reivindica respeito a todos os anseios.

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