Aquele filme mexeu comigo

Alice e as maravilhas

alice

Não faltaram críticas negativas ao Tim Burton pela mais recente filmagem de Alice no País das Maravilhas. Não vem ao caso aqui defender ou atacar a concepção da direção. Vamos tentar outro caminho que também já deve ter sido exaustivamente analisado, mas como nunca li o livro nem tive acesso às versões cinematográficas anteriores, me permito surpresas quase pré-históricas para muitos. Que país é esse?

De uma maneira ou de outra, todos nós ao acordarmos deveríamos prestar atenção às seis coisas impossíveis que o dia irá nos oferecer. Faríamos melhor se as colocássemos na pauta do dia ao invés de ficarmos apenas tocaiando os imprevistos lógicos no discorrer dos fatos. Pelo menos assim poderíamos escolher nossa perplexidade numa direção amigável, harmoniosa, risonha e bem longe de qualquer tipo de violência. Quando nos colocamos abertos para o impossível, com toda certeza nos predispomos a recusar o convencional.  E o convencional aqui se confunde com as coisinhas miúdas, chatinhas, praticamente inevitáveis, que vão se renovando ou se repetindo dia a dia. Quando se troca tudo isso pelo impossível (incluindo a impossibilidade com relação a essas situações medíocres), certamente a sintonia do café da manhã será bem diferenciada…

Além dessa dica que achei fantástica de começar o dia acreditando em seis coisas impossíveis que poderão lhe acontecer num intervalo de 24 horas, o filme apresenta uma série de personagens que quando os desembrulhamos das fantasias, se aproximam de nossos amigos, vizinhos, parentes, colegas. Três desses personagens prenderam minha atenção com mais intensidade: (i) o Chapeleiro Maluco: é aquele amigo que às vezes custamos a entender, que está sempre nos convidando a colocar um “chapéu” diferente nas nossas idéias e mesmo sem ter um controle das conseqüências das suas sugestões, fica ao nosso lado para apoiar e encorajar seja lá o que for;  (ii) Bandersnatch: uma figura com várias características ameaçadoras, desde o tamanho até as garras afiadas que arranham o braço de Alice numa investida agressiva. O que me chamou atenção nesse personagem é que no princípio ele tem um comportamento hostil, mas que com o passar do tempo se reverte num grande aliado de Alice, sendo inclusive aquele que lhe disponibiliza o acesso à arma para enfrentar o dragão. Curiosamente, de todas as ameaças este é o único personagem que efetivamente fere a heroína, mas convenhamos, qual o amigo que num determinado momento não nos causa estranhamento por determinado comportamento ou gesto inesperado; e (iii) a Lagarta: aquela que por deter conhecimento, tem a sabedoria de não distribuir orientações processuais; a característica principal é desafiar Alice a se conhecer melhor para assim cumprir os desígnios que a ela pertencem. Traz em si o conceito da transformação – conhecer é mesmo transformar – e como lagarta, inevitável que se torne borboleta cuja coloração cabe exclusivamente ao segredo da transformação.

O fato é que, independente dos parceiros que atraímos ao longo da vida, sejam eles desequilibrados, covardes, heróis, confusos, apressados, amigos, sábios, tolos… não importa… o que nunca mudará, independente das circunstâncias por mais que extraordinárias, é a solitária responsabilidade de agirmos em conformidade com as nossas aptidões e valores. Somos nós, ali, sozinhos, a cada cena final, enfrentando os diversos dragões que ninguém poderá nos substituir a cada confronto. E vencer às vezes pode ser a enorme importância de tentar.

2 Comentários

  • Tania

    Amei esse Alice do Tim Burton. Isso mesmo desconsiderando o fato de ter assistido em 3D (o que, podemos combinar, faz tudo se tornar ainda mais interessante). Prá começar, a escolha do Johnny Depp para o chapeleiro foi absolutamente perfeita. Taí um cara que tem 1.000 caras que não lhe grudam à face.
    Adorei o artigo que, de quebra, ainda refrescou minha memória sobre as 6 coisas impossiveis que podem me acontecer em 24 hs!
    Beijo

  • Brotosaurus

    Ótimo texto e conteúdo!!

    Apenas para lembrar ainda baseado no filme que existe sempre uma “espada” que necessita ser empunhada pois ela “sabe o que fazer”.

    Alice após assumir a sua escolha em defesa da rainha branca e colocar a espada em sua mão contribuiu para a mobilização de todas as partes interessadas e as “coisas aconteceram”.

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