Sentimentos acontecem dos fatos

Apenas sombras trêmulas na noite

livrovela

Estou tentando entender. Apenas ter uma explicação que não passe pelas evidências de incompetência frente a um fenômeno da física tratado há mais de século. O fato é que este mês, com uma insistência praticamente diária, minha rua fica sem luz. Já tenho vasta coleção de protocolos das ligações telefônicas direcionadas à CEB (Companhia Energética de Brasília) solicitando reparo no sistema. No período da noite a luz se faz mais necessária. Exatamente nesse período ela resolve nos faltar. Quase tem hora marcada: por volta das 19 horas me certifico se a vela está ao alcance das mãos e memorizo visualmente o local onde fósforo e/ou isqueiro se acomodam. Estou desistindo de uma explicação transcendental para o fenômeno (não o da luz, mas o da falta dela) pois a inconveniente freqüência me permite afirmar que são incompetentes os técnicos e gestores da empresa a quem pago (caro) para me fornecer luz elétrica.

São duas as situações que me deixam humilhada pela agressão à dignidade: (i) não posso mudar de fornecedor porque não existe concorrência. Exclusividade sempre é perigosa em qualquer contexto; (ii) podem supor que não me causam nenhum dano já que viver algumas horas diárias na treva (que podem chegar a 5, 6, …. horas) irá reduzir a minha tarifa mensal já que ficam inertes os medidores do consumo nestas ocasiões.

Cansei. Cansei de desviar o meu estoque de velas, que antes serviam aos santos e anjos de guarda e passaram a remediar a incapacidade de um serviço que fica isento de qualquer ressarcimento por danos morais. Cansei. Cansei das mesmas reticências das atendentes que só diferem ao fornecer a combinação numérica que define o protocolo a cada noite. Cansei. Cansei de forçar a vista na esforçada palidez da vela oferecida à leitura do livro que reservei para aproveitar o tempo silenciosamente escuro. Cansei. Cansei do abafado som da morte daqueles insetos minúsculos atraídos pela chama. Comprei um rádio de pilha que batizei de Obscuro e que tenta contornar as abstinências a que sou obrigada nessa supressão noturna do contato com a modernidade. Cansei. Cansei de ser paciente neste sanatório sem comando, cujas conseqüências as recebo como uma obrigatória camisa-de-forças. Esqueceram de colocar a mordaça e por esta razão lavro publicamente o meu protesto…. Quer dizer, para o tornar público terei que pacientemente aguardar a luz retornar e transcrever esse texto – embalado nas oscilações do vento no pavio – para o computador que já faleceu nas longas horas sem alimentação. Cansei. As pilhas do rádio também cansaram e não consigo enxergar onde estão a reposição. Cansei…

Onde eu entrego todo esse cansaço indignado? Anote aí CEB esse protocolo que lhes ofereço e que certamente terá o mesmo efeito dos muitos outros que vocês me forneceram: nenhuma solução!

Se for uma questão de acreditar em milagres, mais sensato esperar que a lua cheia se eternize e da sua luz as nossas noites. Amém. Pelas velas consumidas, amém.

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