Sentimentos acontecem dos fatos

O Confisco da Memória Histórica do País

segredo

Documentos ultrassecretos? E segredo com prazo de validade – no caso 25 anos, com a possibilidade de ser renovada uma única vez por mais 25 anos. Por qualquer ângulo que eu me esforce para ver a situação, a impressão é que meus olhos ficaram cobertos de vidro moído tal a velocidade com que o bom senso se afasta estarrecido com tudo isso.

Faz parte da natureza humana tentar esconder o que considera feio. Isto vale para a criança que com medo de ser repreendida, esconde uma travessura pensando evitar as consequências. Também vale para os adultos que se aplicam de muitas maneiras para disfarçar, ou tentar eliminar, o que avaliam feio: truques de maquiagem para contornar imperfeições faciais; omitir a verdade para não magoar os mais próximos; esconder as reais intenções de uma estratégia que se fantasia de bem público, mas no fundo o benefício é exclusividade de quem a promove. Às crianças a condescendência de imaginarem que mantendo alguma coisa em segredo ela deixa de existir. Aos adultos a minha envergonhada tristeza por não conseguirem assumir os seus atos ou não conseguirem lidar com as histórias sem tentar retocar os fatos. Portanto, é presumível que quando alguém tenta esconder alguma coisa é porque julgou que essa coisa lhe ameaça de alguma maneira e se preservar no segredo é o conforto do momento.

Esses tais documentos ultrassecretos do Estado, foram assim julgados por uma pessoa ou por um conjunto delas. Então, não são ultrassecretos como se julga, considerando que alguém assim os avaliou ao ter acesso a eles. O esforço do Estado em esconder tais documentos me faz supor, com alguma facilidade, que temos uma coleção de atos governamentais que agridem o orgulho patriótico… Tudo fica mais sombrio quando revisito os inúmeros escândalos morais e éticos que a esfera governamental nos tem oferecido ultimamente… Imaginar dimensões maiores que precisam manter-se em segredo é apavorante…

Então querem manter tais documentos em segredo por, no mínimo, 25 anos. Certamente eu não terei condições de viver por mais 25 anos. Nem que eu parasse de fumar, deixasse de beber, e suprimisse todos os riscos a que me exponho em nome do prazer. Impossível sobreviver por mais 25 anos. E aí me vem uma genuína indignação por saber que esta atitude do Estado deliberadamente quer me privar eternamente da verdade. E quando alguém propositadamente esconde a verdade, está enganando. Nesta perspectiva me inclino a buscar um advogado que possa me restituir o direito à verdade que o Estado quer me negar.

Não tenho a menor noção de como irei julgar tais documentos, ou se efetivamente irei me dispor a analisá-los. A questão aqui é outra: é o direito de ter acesso a eles por dizerem respeito à História do único país a que posso “chamar de meu”. Se não reverterem essa infeliz proposta de segredo, terei que lavrar em testamento para os meus descendentes, que existem fatos que me foram omitidos em vida pelo Estado, e que precisam ser resgatados.

Não importa quanto tempo passe (25, 50, 100 anos…), a verdade e os fatos nunca deixarão de existir. Não há entendimento possível que justifique a decisão de me confiscar a memória do País.

2 Comentários

  • Brotosaurus

    Bem… Levantada bola a autora respondeu fazendo um gol de placa que ninguém vai esquecer e não será passível de confisco de nenhuma ordem.

  • Tania

    Vergonhoso. Tudo. Inclusive a avassaladora impotência diante dessas manobras. Quanto mais o tempo passar, mas afastada a realidade, querida. Beijo (de quem que, mesmo daqui a 25 anos ainda esteja viva, não será mais capaz de lembrar).

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