Sentimentos acontecem dos fatos

Oração

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Alguns olhares podem esbarrar nos desejos. Alguns desejos têm parentesco de primeiro grau com a alegria; outros ficam lá no último grau, quase resvalando na tristeza. Foi isso que aconteceu naquela manhã quando, feridos pelas luzes do dia, os olhos esforçavam em manterem-se abertos, enquanto a cabeça rodava e doía – destaque luxuoso da ressaca da véspera. Um início de semana descabelado, desalinhado. Resolveu que ficaria em silêncio, mas aconteceram pensamentos que pareciam musgos crescendo incontrolavelmente na sua cabeça. Tentou se concentrar para que o silêncio prevalecesse, mas os pensamentos não obedeciam: circulavam com muita velocidade de uma ideia para outra, sem destino. Os pensamentos certamente, esses sim, vivem na liberdade de qualquer acaso.

Fez esforço para se levantar do sofá, mas desistiu quando os olhos alcançaram as garrafas e taças espalhadas no tapete. Fechou com força os olhos – um verdadeiro bater de pálpebras – e buscou mais uma vez o silêncio absoluto. Novamente os pensamentos venceram. Quando eu engatinhava, queria andar. Quando eu andei, quis correr. Quando corro, são as asas dos pássaros que determinam a minha direção. Ouviu o celular tocando o som do impossível: a distância inalcançável para as suas mãos dormentes. Não estava dando resultado a tentativa do silêncio porque os pensamentos eram mais fortes que a vontade. Uma pessoa fraca com pensamentos fortes. Somos muitos quantos? Mais uma vez o celular, mais uma vez impossível, mais uma vez inútil.

O sol invadia, sem cerimônia, a sala, os móveis, a fechadura da caixinha de música sobre a prateleira, o lençol branco, a armação dourada dos óculos que replicava sem piedade a luz, com a mesma crueldade com que os pensamentos não obedeciam à ordem de silêncio. Lembrou-se dos versos de uma música antiga: “Vida, minha vida. Olha o que eu fiz: deixei a fatia mais doce da vida na mesa dos homens de vida vazia. Mas vida, ali, quem sabe, eu fui feliz”. Refrão ilustrativo de uma véspera, de muitas vésperas, incontáveis vésperas sequenciais. Sentiu sede, sentiu frio, sentiu vontade de ir ao banheiro, sentiu um gosto ruim na boca, sentiu o cheiro de suor, sentiu cansaço, sentiu a cabeça do tamanho do apartamento. Não queria sentir nada…

Novos pensamentos chegavam numa golfada de sensações provocada pela náusea. Ressaca é o recolhimento do excesso. Contração dos limites. Também recolhimento dos restos desprezados pela intensidade: copos, corpos, compromissos, composturas, comportamentos… sem nada, sem nada, silêncio. Será mesmo impossível o silêncio? O silêncio como negação definitiva de qualquer ruído – que só acontece quando a vida se movimenta. Silêncio que não faz pensar. Silêncio que impede o ritmo. Silêncio da respiração suprimida.

De vez em quando, silenciosamente, eu prefiro morrer.


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