Sentimentos acontecem dos fatos

Secretos Trigais

trigo

Os noticiários buscavam exclusividade para o fato. A regiões Centro Oeste e Sudeste se mantinham em alerta. Aviões de reportagem se deslocavam para o local do acidente, outras pessoas seguiam em viaturas. Todos tentavam ultrapassar o tempo numa gincana pelo furo da matéria.

As primeiras imagens mostravam um espaço da linha férrea destituído de sua função principal: trilhos e bitolas arrancados e dois vagões tombados à margem do destino. Aos poucos ficamos sabendo que foram 5 vagões descarrilados de uma composição de 76, saída de Campo Grande com destino ao Porto de Santos. O acidente foi num trecho de difícil acesso em função de uma preservada mata nativa que acompanhava o rasgo da linha férrea no estado de Minas Gerais. Além do prejuízo das sementes de trigo espalhadas no caminho e carregadas pelos fortes ventos de setembro, nenhuma vida foi perdida. O local foi invadido pelos poucos habitantes que viviam nas proximidades. Também vieram os jornalistas, o representante do dono da linha férrea, o dono da carga embarcada, viaturas de polícia e dos bombeiros: uns calculando as perdas, outros calculando os danos. Pelos rádios e celulares, ordens eram transmitidas, sirenes acionadas, perguntas entre investigativas e curiosas disparadas.

Antonio trabalhava numa rádio de um pequeno município a 300 quilômetros distantes da ocorrência. Conseguiu chegar dirigindo o seu próprio carro, enfrentando o frio, o vento, e a trilha enlameada pela chuva que não dera trégua na manhã do acidente. Sua presença era apenas mais uma naquele aglomerado de pessoas que descreviam um balé tenso, ritmado pela urgência e perplexidade diante de um cenário imposto por um capricho do destino. Antonio ligou o equipamento e começou a transmitir as informações para os ouvintes da rádio: não há feridos; a carga de grãos de trigo tombou nas margens da linha férrea e o vento se encarrega de espalhar com a ajuda de enormes tratores que começaram a trabalhar na desobstrução do local; dois vagões permanecem tombados na proximidade dos trilhos arrancados pelo acidente; os três outros vagões tombaram no despenhadeiro; o maquinista, sem nenhuma lesão, recusou atendimento médico e permanece no local auxiliando as autoridades; as primeiras informações divulgadas pela companhia férrea afirmam que em 4 dias os reparos estarão concluídos; ainda não foi calculado o valor dos prejuízos.

O tempo passou, o acidente foi esquecido, o local voltou a mergulhar na sua própria geografia, cortada pelo ritmo preguiçoso do comboio que emprestava outro som àqueles que naturalmente respiravam na mata onde o acidente foi, um dia, notícia.

Antonio continuava trabalhando na rádio, divulgando os acontecimentos de todos previsíveis, numa cidade pequena onde a perspectiva futura dependia quase que exclusivamente dos relógios estarem atualizados para que o futuro acontecesse no tempo certo. No caminho de casa para a rádio, Antonio sempre passava pela estação de trem e dava um aceno para o maquinista que retribuía com um longo silvo. Assim, todos na cidade sabiam que estavam inaugurando mais um dia sem nenhuma diferença dos demais. Houve uma manhã que o maquinista além de despertar a cidade com o apito da locomotiva, acenou insistentemente para Antonio, gritando para ele ir ao local do acidente, distante dois anos no tempo.

Antonio não entendeu nada, mas ocupou sua tarde de folga e se aventurou a percorrer os 300 quilômetros, motivado pela curiosidade e pela disponibilidade do não ter nada a fazer. À medida que se aproximava do local, estranhou a quantidade de casas simples que apareciam ao longo da linha férrea. A surpresa foi ainda maior quando começou a se dar conta de um imenso campo de trigo que dourava a paisagem e que contrastava com o verde da mata que lhe servia de moldura. Estacionou o carro e foi ao encontro de uma espécie de vila que concentrava várias casas que há dois anos não existiam. Ficou sabendo que com o descarrilamento do comboio das sementes de trigo, os poucos habitantes da proximidade se reuniram, chamaram os parentes distantes, recolheram a carga tombada, semeada de forma improvisada pelo vento, e aos poucos a Vila do Desastre foi surgindo a partir do cultivo do trigo. Antonio estava mais atônito com o que via do que quando testemunhou o acidente. As casas se formavam com certo alinhamento que já deixava antever onde seria a rua principal e todo o conjunto de casas simples que se expandia a partir daquele ponto. Os terrenos das casas não se diferenciavam em tamanho e em todos Antonio podia perceber um espaço reservado para o cultivo de uma horta colorida. Antonio foi perguntando um e outro na medida em que passeava pelo vilarejo e compreendeu que a carga de trigo tombada há dois anos havia sido administrada e possibilitou o surgimento daquele vilarejo.

A visão do extenso campo que servia para o plantio do trigo, espalhando dourado sobre o verde que já não mais prevalecia na paisagem, impediu que Antonio fizesse qualquer comentário. Simplesmente olhou o tamanho da transformação que o acidente havia promovido e uma mistura de confusas emoções se debatiam nele, tirando o fôlego, embolando os princípios lógicos a que tanto se acostumara.

Chegou ao município quando a noite ia alta. As estrelas que o acompanharam durante todo o trajeto, sugeriam algumas idéias que ao final do caminho já se firmavam como decisões, tal o convencimento de lhe ser impossível alternativa diferente: iria manter Vila do Desastre em segredo. Iria impedir ao máximo que a existência daquele vilarejo fosse divulgada. Talvez assim pudesse contribuir para mudar tudo aquilo a que se acostumara e aceitara sem qualquer questionamento. Se dependesse dele, iria dificultar que surgissem em Vila do Desastre a igreja, a polícia, o mercado, o banco, a rádio, e tantos outros símbolos oficiais de progresso que só distanciavam as pessoas do contato com a respiração da terra a qual pertenciam. Iria manter segredo e continuar, resignadamente, anunciando na rádio a vida comum de todos os dias, que acontecia com rigor entre o apito do trem e o badalar dos sinos, a que se resumira os dias no município.

No dia seguinte o maquinista inaugurou a manhã com o mesmo apito cuja sonoridade diminuía na cadência dos trilhos. Antonio não acenou. O maquinista entendeu e também não o cumprimentou. Selaram um silencioso acordo secreto.

Um comentário

  • Tania

    Adorei. Gostoso de ler. Identificação (no meu caso) imediata com os descarrilamentos da vida, que vão semeando novas percepções, oportunidades, mesmo quando não nos damos conta dessas transformações.

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