Sentimentos acontecem dos fatos

Céu, terra e outros temperos

ceu

Libertei deus da necessidade de ser “o todo poderoso”. Em retribuição ele se esqueceu de mim – o que foi duplo benefício para ele, já que deixei de responsabilizá-lo pelo enredo do meu destino. Seguimos assim, um livre do outro.

Minha nova condição me deixando largado no mundo, me fez aproximar da ciência, atribuindo a ela um fim em si mesmo. Não especulei nenhuma transcendência dos seus elementos primários porque, definitivamente, deus estava de férias e não seria eu a fazer analogias que pudessem desviá-lo do justo repouso. Então fiquei eu com a ciência e as suas causas e efeitos – que sem dúvida iria dar um jeitinho de expor todos os meus defeitos.

Abonado dos meus pecados, eu experimentava a leveza dos inocentes – ou talvez dos indecentes, por aproximação. Aventureiro desbravando cidade desconhecida, com a sensação de recomeçar na manhã de cada dia. Vontade grande, respiração longa, sol possível, chuva provável… Caber inteiro na vida faz sentir os pulmões estreitos para a necessidade de ar, sem falar de outra sensação que faz o olhar buscar horizontes, mas que no fundo só evidencia uma grave miopia nos múltiplos graus dos tropeços.

Troquei a legião dos santos com as suas extraordinárias vidas celestes (que sempre se esforçaram para diminuir os meus limites humanos) por uma tribo desajustada, exibindo cardápio variado de personalidades empenhadas nos seus próprios equívocos, do tipo que “não causam mal nenhum a não ser a si mesmos”. E fomos levados pela sucessão dos dias sem nenhuma pretensão de sermos nós a levá-los para algum lugar. Toda a transitoriedade, no mais genuíno sentido da vida, passou a ser o emblema do nosso possível e único apego. E foram discursos revolucionários, artigos da velha “nova era”, passeatas que mudavam de objetivo com a mesma velocidade com que mudávamos de idéias. Um turbilhão das mais aleatórias experiências que não se detinham na busca de qualquer resultado. Libertários, libertinos, liberados, transgressores de todos os princípios numa corajosa odisseia do caos. Vida bamba de trapezistas sem rede de proteção. Ficar no limite, a menos de um palmo do intransponível e se reconhecer a sombra eterna da performática dança da morte. Exaustão dos sentidos. Vertigem da razão.

Impossível liberdade.

Não fomos talhados para o êxodo da esperança.

Amém.

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