Sentimentos acontecem dos fatos

Ausência é o tempo que sobra

sobra

Já faz muito tempo. Às vezes tenho a impressão que foi tempo demais – e um tanto ou quanto inútil – desde a última vez que nos vimos, sem sabermos que seria a última. Hoje fiquei driblando a minha incapacidade de situar os fatos dentro da história e me concentrei na tentativa de dar uma cronologia – a despeito de muito fragmentada – aos segmentos que esculpiram a nossa convivência. Esse foi um investimento que me trouxe a convicção de que quanto mais substituo os calendários, ano a ano, menor o rendimento da minha memória: um espelho retrovisor embaçado que além de deformar as imagens, embaralha a ordem dos acontecimentos. Apesar disso, ainda mantenho a nitidez da pessoa que você foi e consigo identificar alguns absurdos na pessoa que me tornei.

Lembro que ríamos, mais alto que as ondas arrancando da praia as pegadas com que nos despedíamos das tardes. Ríamos numa intimidade tecnicolor – refletida nas cores de quando o céu cansa a própria visibilidade – a alegria de mais um dia ensolarado. O entusiasmo, de uma doce ingenuidade, com que trocávamos livros, músicas, filmes, defendendo ou rejeitando conceitos, idéias, devaneios. Não importava o pretexto para darmos curso à motivação do sentimento. Também sabíamos ficar em silencio. E nos bastávamos no mútuo amparo quando invasivas eram as emoções, ferindo a possibilidade de nos serem compreensíveis. Nunca nos separamos… mesmo nas vezes em que os intervalos dos nossos encontros eram ocupados por um grande espaço de saudade. Nosso único engano foi trazer para a nossa cumplicidade a hipótese da eternidade. A paixão pela vida nos permitiu a ilusão de que algumas certezas conseguiriam resistir, mas a novidade sempre se manteve  de tocaia, na espreita para ocupar lugar. Foi assim, num ímpeto do reverso, que o mundo amanheceu na tristeza da sua ausência.

E já faz tempo demais… cansaço demais… Veio o costume do medo guardado nas tempestades do meu olhar. Veio a indiferença dos dias anestesiados na luminosidade. Veio a surdez do futuro alimentado pela mudez do passado. Chegaram outras pessoas na mesma apatia com que as vi partir. Passaram as estações na timidez de seus frutos. Afastei de mim uma grande quantidade de objetos opacos, por não reconhecer neles o sentido que um dia existiu. Volta e meia me olho no espelho e me pergunto a que veio o estranho que me observa sem nenhuma referência na imitação sincronizada dos meus gestos.

Eu só espero que o desgaste do tempo seja breve e generoso: tudo se dissipe num suspiro….

2 Comentários

  • Jandiara

    Mas então é assim: não dá para resgatar? Será que em nome de um suposto exercício de desapego a gente também tem que deixar partir os cúmplices? Se fosse natural a dor não seria tão grande. Acho que nada precisa ser tão radical. Bjs

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