Sentimentos acontecem dos fatos

Quase um dia comum

quase

Quando eu acordei, escovei os dentes com o rádio e a televisão informando que aquela cidade do outro lado do mundo havia sido bombardeada. Zona de conflito de insanos poderes: notícia previsível que agora se definia na data. Quando preparava o café da manhã, a manchete do jornal estampava a atrocidade em uma das capitais: chefe de família assassinado na frente dos dois filhos por um ladrão que queria se defender de uma possível reação do pai ao proteger um dos filhos. Quando folheava a minha agenda para administrar as urgências do dia, o telefone tocou: era um amigo dando a notícia que uma conhecida nossa havia falecido, vítima de um motorista bêbado em alta velocidade. Desligo o telefone e olho pela janela um foco de incêndio na distância, levantando uma fumaça negra na direção de um céu irretocável na tonalidade do azul. Vou até a geladeira tomar um copo de água e a nota-de-canto-de-página no jornal me lança uma desconfiança de que as dificuldades são tamanhas que talvez resulte inútil qualquer esforço em tentar reverter o caos dos serviços públicos: senhor de 70 anos morre na fila de atendimento num posto de saúde. Pago as minhas contas do dia via internet e me deparo com uma aberração desrespeitosa da instituição bancária a que fui, até então, vinculada: sem nenhum comunicado, simplesmente altera os dígitos da minha conta e me transfere para outra agência. Arremessada numa realidade que não tive nenhuma participação, me pergunto como é possível algumas instituições se valerem de um poder que não têm para sujeitar os seus clientes a situações indesejáveis ao extremo. Hora de dispensar algum tempo na decisão do cardápio do almoço e tocam o sinete do portão da minha casa: lobby de candidato a síndico querendo me convencer do bom negócio de votar na chapa tal. Fico ali, em silêncio, ouvindo uma série de argumentos vazios que fortalecem a minha fome e diminuem as reservas de esperança na humanidade. Existem cargos que por princípio deveriam causar aversão a qualquer candidatura, pois trazem com eles uma quantidade extraordinária de aporrinhações que não compensam a remuneração. É bem verdade que no mundo real esses cargos servem a uma infinidade de outros propósitos que não à função propriamente… Quando enfim consigo preparar e consumir a minha refeição, a vizinha grita meu nome do outro lado do muro: pede carona até a casa da filha onde o pai é ameaçado pelo próprio filho com uma arma. Quando chegamos ao destino a ambulância já havia recolhido o jovem para uma clínica de desintoxicação enquanto o pai se medicava de um corte sem muita profundidade e a arma (facão de cozinha) era recolhida por dois policiais que já agendavam depoimentos junto às testemunhas. Voltei sozinha para casa e no itinerário me deparei com duas batidas leves que retesavam o trânsito e um capotamento impedindo qualquer fluxo. Enquanto fazia um café para me recuperar do contato com um tragédia doméstica, o rádio interrompeu a música suave do dial intencionalmente escolhido para anunciar em primeira mão a dimensão da catástrofe no sul com deslizamentos trazidos pela chuva ininterrupta há três dias. Número de mortes não confirmado, número de desabrigados não calculado. Desligo o rádio. A tarde lentamente se despede. A claridade começa a ceder e os primeiros sinais de cansaço são brechas que anunciam a proximidade da noite. Corro para regar as árvores e plantas, aproveitando os restos de luminosidade. Despedidas são fraquezas do vermelho…

Surpresa! Escondida entre galhos finos, meus olhos encontram um lindo botão de rosa. Delicadamente, entendo a importância de ter vivido mais um dia…

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