Sentimentos acontecem dos fatos

Quando eu quis achar uma estrada reta

Pois é, moro no Planalto Central conhecido pela largueza do céu e pelas estradas retas que rasgam um sem fim de caminhos. Pelo menos era isso que eu também aceitava até o dia em que fui procurar uma estrada que fosse, realmente, desprovida de curvas. E lhes digo: não encontrei!

Por aqui é comum dizer “Pega aquela reta tal que você chega a determinado lugar“. Artifício espacial que facilita a orientação. Então peguei o carro e fui examinar a retidão das estradas: quando quase me convencia de que estava numa estrada reta, eis que surgia uma leve inclinação, às vezes para a esquerda, outras vezes para a direita. Se não fosse a concentração no traçado do caminho, certamente eu teria carregado por mais tempo a noção enganosa de que aqui as estradas são retas. E o interessante é que visualmente ainda prevalece a impressão de que não há curvas no caminho, pois dependendo do ponto em que se está é possível ver a continuidade da estrada para além das pequenas sinuosidades reconhecidas, principalmente e quase exclusivamente, pela tração do veículo.

Por mais que eu considere confortável aos motoristas estradas desprovidas de curvas, não tenho nenhuma simpatia quando percebo que a minha vida segue uma linearidade, me impedindo de vislumbrar novas perspectivas, de experimentar outros ângulos, de me reavaliar em novos contextos. Mesmo sabendo que não existe um único dia que possa ser igual a qualquer outro, por mais longa que seja a vida de uma pessoa, existem intervalos de tempo que desafiam a minha capacidade de identificar neles o que de exclusivo eles possuem. Surge então, em algum ponto da complexidade do indivíduo, aquela sensação de estar no automático, de estar apenas atravessando as horas e não os fatos, seguindo por uma estrada que não nos promete nenhuma curva, nenhuma surpresa, que não nos exige nada, mas que também nada nos oferece.

Neste ponto se dá o engano: tendemos a responsabilizar tudo e a todos, sem nos darmos conta de imediato que nada muda se nós não mudarmos. Não é a vida que está chata, sou eu a aborrecida de mim mesma; não é o clima seco que me tira a energia, sou eu que não interajo com as necessidades que a estação nos impõe; não é a novidade que não chega, sou eu que nada fiz para que ela se aproximasse de mim. Estradas retas, afinal, não existem: apenas deixamos de considerar aquelas meigas atrações desviantes que a vida nos oferece rindo da nossa extraordinária dispersão.

Um dia eu saí de casa querendo achar uma estrada reta. Encontrei delicadas negativas que se desdobraram em perspectivas interessantes, indicando abertura de novos caminhos, outras possibilidades promissoras.

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