Sentimentos acontecem dos fatos

Quando a falta de educação é perigosa

Ultrapassamos 90 dias sem chuva em Brasília. Com a ausência da chuva temos por constância uma umidade em torno de 10%. Respirar fica difícil porque aquela fina poeira vermelha que a tudo reveste, também chega aos pulmões encurtando a respiração e excluindo do olhar a nitidez.

Essa é uma realidade reeditada a cada ano em todas as conversas, independente do grau de intimidade com que as pessoas se aproximam. O que me impressiona não é constatar, ano após ano, que gradativamente a estiagem aumenta e a umidade diminui; a minha superlativa comoção é confirmar os níveis criminosos da falta de educação que são superados a cada ciclo. Em um único dia ter que conviver com 202 focos de incêndios num perímetro de devastação que já consumiu mais de 10 mil hectares do Distrito Federal é um absurdo que alcançou a marca do intolerável.

A frequência com que a mídia nesta época do ano alerta a população sobre os cuidados para se evitar queimadas é de tal forma ostensiva que a ignorância é inadmissível como atenuante para a irresponsabilidade de vivenciarmos 50 metros na altura das labaredas. É um preço absurdamente alto que o eco sistema tem que pagar; é uma indisfarçável vergonha observar os pontos escuros que sorrateiramente vão substituindo a beleza de um céu primorosamente azul, por uma opacidade que constrange a luminosidade e impede a visão das estrelas nas noites abafadas. Tanta destruição é o tamanho da falta de educação – criminosa – que está infiltrada em parte da população que desconhece o quanto os maus hábitos prejudicam a qualidade de suas próprias vidas.

Por aqui a “sem noção” já foi capaz de atirar coco pela janela de carro em movimento, causando grave acidente com vítima. Portanto, parece de menor gravidade dispensar as guimbas dos cigarros enquanto se dirige, ou enquanto se caminha. Apenas aparência, porque esta transgressão moral tem consequências imprevisíveis, todas referendadas por catástrofes. Também tem aqueles “sem noção”  que largam garrafas de vidro nas vias públicas, fazendo com que sob o efeito do sol o fogo se propague na secura da vegetação. Enfim, Brasília todos os anos é vítima de crimes ambientais cada vez mais estarrecedores, praticados, ironicamente, por aqueles que vivem na cidade e que não se dão conta que as suas atitudes pouco civilizadas trazem prejuízos que eles mesmos terão que administrar.

Crimes que além de destruírem vidas, diminuem a beleza do cenário e alteram de forma irreversível o eco sistema. Irresponsabilidades que obrigam os bombeiros a concentrarem esforços para impedir a velocidade da destruição que o vento acelera na proporção da sua intensidade. Todo um efetivo militar tentando neutralizar a covardia de atos escabrosos, e com isto são obrigados a abrir mão da eficácia em outros atendimentos – vítimas de trânsito, recolhimento domiciliar de leite materno, corte de árvores, resgastes aquáticos, entre outros – para cuidar de situações que facilmente poderiam ser evitadas com um pouco de bom senso.

Até quando esses infratores permanecerão impunes? Até quando a falta de consciência de alguns continuará destruindo o patrimônio público, afetando a qualidade de vida de todos?

A depender de mim, devolveria a cada infrator todos os objetos dos crimes no momento exato em que eles tentassem dispensá-los nas vias públicas. Mas a contabilizar a quantidade de queimadas a cada dia, já é de grande contribuição poder recolher essas peças criminosas evitando as consequências danosas que elas promovem. Afinal, já que é tão difícil essas pessoas “sem noção” aprenderem dentro de suas casas os princípios básicos da boa convivência em sociedade, talvez exemplos de pessoas anônimas possam suprir as lacunas que suas famílias não conseguiram ensinar.

Queimadas nunca mais! Pode ser o slogan de uma mobilização cidadã, espontânea, daqueles muitos, que como eu, não queremos que esta cidade seja consumida por queimadas irresponsáveis. Não fui eu quem jogou aquela garrafa no meio fio, mas pouco importa: vou recolher essa ameaça da rua, sabendo que assim talvez um foco de fogo a menos eu tenha conseguido evitar.

 

Um comentário

  • Tania

    É de estarrecer mesmo a falta de entendimento e pouco caso que os homens cada vez mais carregam dentro de si.
    Educação parece estar se tornando uma entidade abstrata e vazia de significado.
    Uma pena.
    Beijo

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