Sentimentos acontecem dos fatos

Tupinambás e Grafites

Então eu perguntei de onde ela tinha vindo, já que chegara à cidade há cinco meses. Demorou alguns minutos me olhando com um meio sorriso, tirou do bolso um papel e me entregou fazendo um carinho em minhas mãos. Quando abri o delicado papel de seda, saltaram traços e linhas numa confusa geometria. Não controlei a gargalhada ao entender que havia recebido um mapa astral. Levantei a cabeça, mas Manuela já havia sido tragada pela pista de dança. De longe ainda a vi cumprimentando uma roda de dançarinos, mas perdi o contato visual ao ceder um cigarro a quem não conhecia e que insistia por um trago.

Um tempo depois ela voltou alterada em uma dose a mais e segurando um copo que rapidamente me estendeu. Aceitei com a delicadeza de não indagar sobre o conteúdo. Após o primeiro gole agradeci a gentileza de ser a minha bebida preferida. Ela iniciou movimento de sentar ao meu lado, mas foi bruscamente interrompida por alguém que a pegara pelo braço e a levava num abraço para a pista de dança. Arrastada, ainda olhou para mim fazendo um sinal de que voltaria. Sorri medindo disponibilidades e a quais interesses elas se oferecem. Terminei a caipiroska como quem mede o tempo, como quem sacode os dados do destino, como quem suspende a respiração e se concentra na rotação da terra acompanhando o sol se esgueirando por trás do horizonte. Fui embora levando o mapa astral: saldo da noite.

Meses foram substituídos por outros meses: esvaziamento de dias tão parecidos. Obrigações, compromissos, um pouco de diversão: agendas preenchidas por uma previsível rotina cronometrada pelo absurdo. Meia noite de quarta-feira: os bares não têm movimento. No cumprimento estrito da solidão, me juntei aos poucos contumazes transgressores dos bons costumes e pedi a segunda caipiroska. A friagem da madrugada sempre me pareceu habilidosa em arranhar as lembranças que ficaram congeladas nas feridas do tempo. Ao meu redor vultos ocupavam poucas mesas, obrigando o bar a permanecer aberto. As luzes da viatura de polícia na ronda de um crime qualquer, iluminaram muito rapidamente as amarguras dos sem destino, destacando exatamente aqueles pedaços que eles mais desejavam pudessem deixar de existir. Alta madrugada, a sucessão dos copos esvaziados no silencio das horas já permitiam um estrabismo na relação do meu cérebro e o meu olhar. Me preparava para deslocar meu corpo daquele cenário, quando Manuela se levantou de uma mesa e caminhou na minha direção com um sorriso que meus olhos já reconheciam com intimidade: “Lhe entreguei o mapa da minha vida e você demorou tanto tempo para me achar”. Sorri: “Não sei decifrar os GPS do destino. E tanto é assim que quem me achou foi você. Ainda me confundo naquelas tantas linhas do roteiro da sua vida”. A largura do seu sorriso diminuiu, e era a naturalidade do outono substituindo o verão: “Você está indo embora?” Sem esperar resposta: “Toma a última comigo?” Olhei Manuela sem as armadilhas da eternidade e tentei adivinhar como terminaríamos alguma coisa que nem mesmo havíamos formalizado o início. Que espécie de saudade iríamos depois tentar despejar nas madrugadas mais, ou menos, frias que aquela. Meu olhar para Manuela tinha nome e sobrenome da recusa. Da minha coleção de fracassos afetivos, tirei do bolso a seda onde o seu destino havia sido desenhado e lhe devolvi num abraço – daqueles abraços em que os envolvidos pressentem que não serão revisitados. Manuela me conferiu um calmo abrir e fechar de pálpebras: fotografia inevitável para a memória. Sussurrou no meu ouvido: “Leve de leve a sua história…” e assistiu o meu afastamento na mesma posição em que a deixara.

Deixei Manuela de madrugada, na hora em que persiste a dúvida se o dia ainda continuava ou se outro já começara. Não me incluí no mapa astral de Manuela, mas todos os esforços tinham sido inúteis: ela já estava no meu. Os sorrisos que iluminam a intensidade dos seus olhos ocuparão as madrugadas atiçadas por meus híbridos sentimentos.

Estava lá, grafitado na parede do tempo: “Existem pessoas que por medo da saudade deixam de experimentar o amor”.

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