Sentimentos acontecem dos fatos

Trash

caos

fonte da imagem: www.mises.org.br

Ela não conseguia entender como o azul – tão lindo o azul – se prestava a uma percepção do caos quando embaralhado em finos contornos congestionados de formas. Ela também não conseguia entender uma série de outras coisas. Sobrevivia a muitas incompreensões. Depois ocorreu-lhe a hipótese do quadro ser muito maior em beleza e em reverência ao azul que a sua limitada apreensão dos sentidos. Também sobrevivia a muitas coisas sem sentido. Lembrou-se dos rabiscos que foram colocados na tela e que estavam sendo vendidos naquela galeria em Ipanema por um preço milionário. Certamente a sua compreensão até mesmo da beleza,  já estava desfocada na modernidade que era do mundo, mas não dela.

Já não sabia direito quando as coisas começaram a ficar mais críticas nela. A velocidade da vida já lhe era difícil acompanhar. Mas nunca se entregou facilmente: depois que se aposentou fez uma outra faculdade, aprendeu as novidades tecnológicas com relativa desenvoltura. Adquiriu certa habilidade no gerenciamento do mundo globalizante e a voracidade da circulação das informações. Mas por mais que fizesse, sentia que ia se afastando de forma quase imperceptível da vida.  Lentamente o mundo lhe acenava uma simpática despedida que ela só se dava conta nos graus acrescidos dos óculos, a cada ano. Ou quando sua vitalidade se defrontava com a sua impossibilidade de manter a exigência com relação ao físico; e isso acontecia em intervalos de tempo delicados e amigáveis. O que significa constatar que nenhuma sutil restrição que o tempo lhe impunha era capaz de um confronto direto com as evidências de decriptude que paulatinamente aconteciam.

Ali, na frente daquele quadro, ela que a tudo e em tudo preferia o azul, já começava a desconfiar que aquela cor não lhe inspirava incondicional preferência. E foi a primeira vez que experimentou um cansaço diferente, sentido nas moléculas, nos vãos sombrios e nos iluminados da própria alma. Um pouco aflita reconheceu na sua intimidade o pleno sentido de desistir. Ainda olhou para os lados tentando identificar se as pessoas a sua volta se deram conta da imensa tragédia existencial a que fora vítima. Mas o suspiro que emitiu era da mesma natureza pacífica, quase natural, que resume o último manifesto da vida.

Depois daquele dia, uma quarta-feira típica do outono, ela passou a ser reconhecida pelos longos silencios com que seus olhos passeavam pelo mundo. Em que mundo sobrevivia?

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