Sentimentos acontecem dos fatos

Discursos não mudam realidade

Eles desciam dos carros oficiais. Ternos com bom caimento e elegantes vestidos chamavam atenção por não serem habituais naquelas terras. O aparato de segurança que distingue as autoridades tinha a mesma evolução daqueles filmes americanos. Na porta do hospital, profissionais de diferentes mídias aguardavam o governador, seu secretário de saúde e incontáveis assessores. Enfim a extensão do pronto-socorro, esperada há 16 meses estava sendo inaugurada a um custo de 6,5 milhões empregados em 700 metros de espaço. Toda a comitiva acompanhou o governador na visita as dependências da construção ampliada. Esse trajeto foi percorrido considerando a importância das máquinas fotográficas registrarem a qualidade do local. O poder se manifestava para quaisquer microfones que estivessem ao alcance de sua voz. Discursos que valorizavam o feito e os benefícios para a população. No final, fogos de artifício puderam ser ouvidos por um longo período, enquanto o governador informava que a ampliação do pronto-socorro do hospital estava inaugurada, e que em alguns dias a população poderia se beneficiar desse legado social.

A poucos metros dali, pacientes se assustaram com os fogos de artifício enquanto esperavam atendimento no ambulatório do mesmo hospital. A fila de tão grande podia ser vista à distância. Muito provavelmente se o governador não estivesse tão preocupado em mostrar à imprensa a beleza da ampliação que estava “inaugurando”, teria se dado conta do sacrifício daquela gente em busca de um serviço de saúde. Os funcionários do ambulatório começavam a ficar nervosos com a quantidade de pacientes que esperavam além da porta principal, se apoiando nos muros, contornando a esquina… um contingente mais que suficiente para caber na noção de “grande quantidade de pessoas”. Os seguranças andavam de um lado para outro com expressões severas nos rostos, esperando um único gesto dos profissionais do ambulatório para entrar em ação e fazer a vida de todos ainda mais difícil.

As crianças no colo dos pais choramingavam ou se mantinham adormecidas pela febre. Os idosos, que aprenderam a gemer como se fosse um sussurro ou uma prece, mantinham o olhar em algum lugar desconhecido como se assim pudessem se isolar da situação que enfrentavam. Os acompanhantes daqueles pacientes que mal podiam andar se contorcendo de dores, começavam uma movimentação de corpo desesperada pela óbvia percepção de ser insustentável permanecerem naquela situação por mais tempo. Uma parte desses excluídos rapidamente se deu conta que os fogos de artifício e os carros imponentes estacionados irregularmente na proximidade do pronto-socorro, significavam presença do governador. Foi somente terem essa confirmação para que palavras de indignação estremecessem com muita intensidade o cansaço das longas horas de fila.

A indignação de quem se sente impotente no desrespeito a que é submetido promove reações das mais  imprevisíveis: do choro que tenta lavar toda a falta de dignidade com que é tratado, à agressão física que identifica de forma cega um responsável próximo e parte para o ataque. Numa fila de pacientes aguardando consulta, sem nenhuma garantia de terem atendimento, somente a debilidade de seus corpos pode conter a violência de terem que passar por essa humilhação. Começou um zum-zum-zum de desfecho previsível: a polícia foi acionada para impedir gestos violentos por parte dos acompanhantes. Mas para a outra violência, aquela que é capaz de submeter um ser humano a uma absoluta privação de dignidade, para essa não havia chance de solução a não ser a sorte, mas esta parecia ter virado as costas para aqueles que dela mais precisavam. Soubemos mais tarde que a polícia levou para a delegacia o acompanhante de uma mulher que esperava cinco horas por atendimento. Alucinado em ver a mulher desmaiar duas vezes com uma dor na altura do abdômen, o homem tentou forçar a entrada no ambulatório aos gritos. O marido foi preso e a mulher desamparada de médico e agora de acompanhante, não sabia o que fazer abandonada no meio fio, olhar desorientado e com uma dor a mais: na alma.

O governador depois de enaltecer o benefício que a inauguração daquela ala do pronto-socorro traria para a população, pediu a compreensão de todos para o fato das instalações requererem rigorosa limpeza antes das portas serem abertas ao público. Os repórteres ainda tentaram buscar uma explicação do governador sobre o fato dessa faxina não ter sido feita antes da inauguração, mas o governador se limitava a repetir que a população não poderia ficar exposta ao risco de infecções, e apressadamente entrou no carro enquanto seus assessores empreendiam a mesma velocidade em retirada.

No ambulatório, depois da saída da polícia levando por prisioneiro o homem que ousara desacatar os profissionais de saúde e os seguranças, chegaram e partiram algumas ambulâncias sem conseguir solução para os pacientes que peregrinavam de hospital em hospital, sem acolhida. Um tempo depois veio o golpe de misericórdia: um profissional de saúde escoltado por dois seguranças percorreu a enorme extensão da fila dispensando grande parte daqueles que lá esperavam – não havia especialidades médicas que atendessem a todas as urgências passadas em revista. A fila rapidamente se transformou numa roda desesperada de pessoas e o sofrimento as impedia de identificar a melhor providência a ser tomada naquelas circunstâncias completamente adversas. O tumulto aumentou proporcionalmente à agressividade dos seguranças. A polícia mais uma vez foi chamada para intimidar a tentativa de rebelião por parte daqueles que ainda podiam se indignar.

O destino dos pacientes que precisavam de cuidados médicos de emergência nos é ignorado. Mas o governador naquele mesmo dia compareceu a outro evento acompanhado de outra comitiva, querendo mais uma vez convencer a opinião pública dos benefícios que a sua administração estava propiciando à população.

Não, não é uma história inventada. É um relato de fatos que ocorreram a uns poucos quilômetros de onde eu moro. Apenas por uma contingência qualquer, eu não fazia parte da fila que esperava por atendimento. Eu estava ali de passagem, como de passagem também estava o governador. Se houvesse uma disponibilidade de tempo maior naquela inauguração, o governador poderia ter avaliado em que proporção é urgente uma administração competente para dar conta das emergências que nunca serão resolvidas enquanto forem desviadas de uma porta para outra, sem adequado acolhimento.

 

3 Comentários

  • Renato

    Até parece mais um episódio de «O Bem Amado», um triste retrato do Brasil de ontem o qual insiste em se prolongar – até quando? – no Brasil de hoje… Ao menos nos episódios de «O Bem Amado» havia uma dose de humor, mas a realidade, cada vez mais dura, não permite sorrisos…

  • Brotosaurus

    Agnulo e não Agnelo minha gente!!

    Prestem muita atenção pois na TV ele continua fazendo muito e nós pagando os comerciais.

    Nos jornais locais está um descalabro. Chegam até a comprar páginas inteiras na mesma edição e nós também continuamos pagando.

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