Sentimentos acontecem dos fatos

Eu li…

Estava lá, na contra página do caderno principal do jornal: “coordenadora de aids de um dos municípios do Amazonas foi detida por tráfico de drogas“. A matéria fornecia outros detalhes como o nome, a localidade e o método utilizado: droga acondicionada em caixas de isopor que se faziam passar por coletas de sangue a serem processadas em outro município.

Bateu uma estranha conjunção de sentimentos: vergonha, decepção, indignação, tentativa de identificar que motivação poderia justificar uma atitude tão…desviante. Confesso que foi difícil ler na íntegra a notícia. Fechei o jornal e fui colher amoras no pé, tentando organizar as muitas faces de um desapontamento que fisicamente teve lugar a milhares de quilômetros da minha pessoa.

Na tentativa de diminuir a adrenalina circulante, tentei buscar em que medida o fato me havia agredido com tamanha intensidade. Afinal boas condutas não ocupam espaço em nenhum noticiário e conviver com notícias atravessadas, dado aos quantitativos e aos requintes que desafiam a imaginação, já me obrigaram, algumas vezes, a tentar imaginar em quais circunstâncias eu cometeria atrocidades e em que níveis. Já senti vontade de jogar uma bomba no Congresso Nacional; já assinei petição pública para obrigar os eleitos pelo povo a matricularem os filhos em escolas públicas pelo tempo do mandato (acho que das crueldades esta foi a mais sofisticada de todas); já me vi tirando a vida humana se testemunhasse estupro ou pedofilia. Mas nunca me vi maculando o meu trabalho em benefício próprio. É certo que não devem ter sido poucas às vezes em que tomadas de decisão não honraram as responsabilidades do meu ofício, mas elas se circunscreveram a um incompetência técnica que, muito provavelmente, me obrigou a um acréscimo de trabalho para restabelecer o bom andamento.

Depois de examinar alguns fios soltos daquela imagem quebrada, me dei conta que o maior incômodo na notícia foi o trabalho ter servido a um crime premeditado. Isso significa que se eu tivesse lido a notícia de mais um caso de tráfico de drogas, sem saber tratar-se de um agente de saúde que usava processos de trabalho para efetuar o crime, teria seguido a minha vida com a estatística atualizada e nada mais além disso.

O que me deixa sem chão, sem teto, sem parede, sem espaço… é usar a profissão – no caso específico uma função para preservar a saúde da população – para a prática de um crime – no caso específico um delito que compromete a saúde. Não sei, pelo menos até agora, como é possível alguém exercer uma profissão sem estar apaixonado pelo que faz. Aqui, apaixonar é acreditar na importância do seu trabalho; é zelar para que seja executado com a melhor qualidade; é identificar no trabalho um sentido importante da sua vida; é acreditar que mesmo sendo uma pequena parte, pode ser uma porção significativa para modificar positivamente uma estrutura bem maior.

Nunca permaneci mais de “meia hora” trabalhando em uma especialidade que não me fizesse sentir apaixonada. Por mais humildes que fossem as minhas funções, sempre consegui identificar nos meus trabalhos uma extensão de mim mesma. Ora, a que nível de anulação uma pessoa pode se submeter ao não se identificar intimamente com a profissão que exerce?

Terminei a coleta das amoras substituindo a indignação que a leitura da matéria me provocou por uma enorme tristeza pelos muitos enganos de vida, infinitamente mais criminosos que aquele pelo qual terá que responder judicialmente.

 

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