Sentimentos acontecem dos fatos

Só foi o tempo que fugiu…

Caramba! O tempo fugiu e não me levou com ele. De repente, lá estava eu, no meio da rua, entre as duas calçadas. E ainda deu tempo de ver o tempo correndo, disfarçando calma, virando uma esquina, se misturando nos fatos – fatos que seriam meu futuro se o tempo não tivesse resolvido se deslocar, danado de pressa, sem me levar….

Sem possibilidade de acompanhar o tempo, finquei raiz nas circunstâncias transitórias que passaram a ser definitivas. Desconfortos de toda sorte, por exemplo: no meio de uma empadinha de frango que bem poderia ter sido de camarão. O fato é que com relação ao tempo não temos a mais leve possibilidade de controle. E olha que eu ainda gritei prá ele: “Leva eu! Leva eu!”…. Nenhuma consideração. Seguiu caminho, foi em frente, sem nem ao menos me permitir escolher em que ponto da linha do tempo permanecer enclausurada.

Situação colocada, já faz muito tempo que permaneço nos mesmos sentimentos, nos mesmos gestos, nos mesmos pensamentos. Quando ouço alguém dizer “Agora sou um ser renovado”, fico ali, olhando…. sem saber o que significa, em conteúdo, o orgulho com que tal frase é pronunciada. Renovação é coisa que o tempo trabalha terreno e a pessoa só faz é seguir caminho.  Prejudicada nessas histórias de “renovação”, só fico olhando enquanto mastigo a mesma empadinha, repetitiva no frango.

Por conta do tempo que fugiu sem me levar, o estranho hábito de ruminar a mim mesma, mesmo sabendo impossível encontrar qualquer novidade, reforçou que é desnecessária a esperança, inútil a fé, e uma tremenda perdição a busca de qualquer sentido para a vida. Lembre-se que estou aqui, nessa fenda inusitada, sem os elementos químicos que o tempo poderia oferecer. Assim, despojada de qualquer noção próxima do que seja expectativa, vou me agüentando sem futuro – presente encharcado de laquê – até que esta nitidez fotográfica vá perdendo o viço, confundindo as cores, desfazendo traços e permitindo, talvez, uns leves contornos na fotografia desbotada que deixou de existir.

Enquanto isso, eu não tenho estréias a compartilhar: sou presa do inesquecível amor; sou instrumento de um mesmo ofício; sou reincidente nos mesmos vícios; repetitivos acordes de uma caixinha de música; prato-feito e invariável; mantida por alguns sonhos – se este for o nome adequado – sem nenhuma chance (seja de realizá-los seja de se desfazerem); patinando como uma correia arrebentada na quadratura estreita dos dias que nascem e dos dias que morrem.

Tudo isso porque o tempo fugiu me deixando escondida no presente, interditada para qualquer possibilidade de futuro.

4 Comentários

  • Kelly

    Estou muda até o momento. Insisti para postar algo no dia em que tive contato com essa sua obra prima de pensar, mas não consegui. Desde quarta-feira me encontro muda, tentando de alguma forma visualizar a insistência do meu aparelho cerebral em acreditar. Acreditar que há uma linha de chegada, crer fielmente que serei perfeita e terá cura todas as minhas angústias…perfeita, super humana, mas, insistindo em conhecer a bendita linha do meio, meio da estrada…. sei que o atropelamento é consequência inevitável, mas vou fazer o que para impedir?….desejo ruminar a mim mesma e aceitar a cíclica vida….e ver que nada mais perdi, com essas esperanças desesperançosas, do que a coisa mais importante da vida: o tempo…Ver que ele foi e também não me chamou…sei lá, para quem ainda está muda, até que escrevi demais. Beijos e como sempre vc me inspira muito.

  • Vera Menezes

    Oi Kelly, fico contente em saber que o fato de cansar de mim e com isto procurar outras óticas possíveis de ver as coisas, tem algum reflexo crítico em alguém. Às vezes aciono a metralhadora giratória e vou olhando os pedaços e tentando colocá-los em contextos diferentes. Legal saber que isso também lhe interessa….. Bjs.

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