Sentimentos acontecem dos fatos

Enfisema com novo layout

São dois os motivos inadiáveis que me fazem sair de casa: falta de cigarros ou falta de comida (nesta ordem de prioridade). Cigarros eu compro aos pacotes, comida eu garanto o básico (feijão com arroz) em estoque, enquanto que os complementos mais perecíveis se revezam entre o congelador e os mais minguados nas prateleiras do refrigerador.

 Outro dia, desprovida da dobradinha de primeira necessidade, me coloquei na direção do mercado. Aproveitei a incursão social e passei na vizinha com um saco de pequis catados no quintal. Cheguei ao supermercado antes da chuva. Intuitivamente a recomendação foi o exercício do tipo apressada, pois as carregadas nuvens, deprimentes, estavam bem agarradas na promessa de interferir na minha saída.

Aprendi a gostar de mercado quando percebi nele a respiração das safras: tempo de abacate, tempo de tangerina, tempo de manga, a chegada da laranja lima…. Logo na entrada fiz sinal para a antiga funcionária que me liberasse do recinto específico (chaveado) dois pacotes do meu vício mais fiel (opa: fidelidade são vícios?). Ela nem me demandou a marca, pois a minha freqüência a intervalos longos já havia sido suficiente para ela fixar a minha preferência. Quando ela me estendeu os dois pacotes, numa reação quase involuntária eu fiz um gesto de recusa e espanto. Ela sorriu e disse “a embalagem mudou”. Eu olhei, conferi, conferi novamente e aceitei o que me estava sendo estendido.

Sai do mercado e fui logo pegando um maço. Olhei, olhei, olhei mais uma vez…. Descobri que sou muito conservadora e lamentei com algum vestígio de saudade, não ter guardado um “velho” maço. O que era dourado exuberante ficou tão pálido que facilmente pode ser definido por prateado; apareceram umas bolinhas douradas no topo e, pior de tudo: o cigarro em si apresentava uma listra larga no início do filtro, onde antes eram delicados fios vermelho e dourado. Bastante contrariada, como já perceberam, estava disposta a rechaçar a novidade, a um passo de esbravejar que haviam mudado o gosto do meu vício. Mas não era verdade e bastante imprudente eu me convencer do meu descontentamento pois me obrigaria a procurar outra marca depois de tantos anos de convivência.

Mas de quem foi a idéia de mudar assim a embalagem do meu cigarro? Já estava suficientemente atrelada ao vício e prescindia de quaisquer “encantos” adicionais à minha convicção. Teria sido um marketing para angariar novos adeptos? Bobagem. O consumidor de cigarro se prende à essência das coisas, ou seja, aos níveis combinatórios dos venenos que conferem a cada marca uma possibilidade de empatia com a garganta, esôfago, pulmões e outros muitos órgãos envolvidos no suicídio passivo dos que se consomem em religioso afeto pela prática. Mas também pesa a familiaridade, os anos de convívio.

O fabricante não me perguntou, mas eu me manifesto no pleno direito de consumidora – praticamente sócia minoritária – do produto que da noite para o dia me foi oferecido com um desvio de personalidade cujos propósitos não me foram anunciados. Será que imaginam que uma vez viciado, esgota-se a consideração? Podem fazer o que quiserem – no caso apenas o nome ficou inalterado – pois o viciado despreza a forma como o produto lhe é oferecido? Pois cometeram um engano. Foram anos, muitos anos, abrindo maços e mais maços, numa intimidade com o aspecto e com o conteúdo que deveria ter merecido pleno respeito.

Qualquer dia eu me rebelo e saio a cata de outro vício!

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