Sentimentos acontecem dos fatos

Um sorriso impreciso

Olhou como quem não estivesse prestando atenção. Ficou assim, vendo o dia ir embora por entre nuvens coloridas, confundidas no rosa, amarelo e  azul que ainda restavam do que em breve seria privado de cores. Na mesa ao lado uma mulher – talvez uma menina se despedindo de si mesma – falava ao celular interrompendo longos silêncios com uns sorrisos que somente ele podia receber, mesmo que estivesse numa posição de não estar prestando atenção.

Entendeu por definitivo que era bom mais um dia indo embora. Ia esquecer rapidamente que aquele dia tinha acontecido somente para que  o futuro lhe ficasse mais próximo. Só não tinha entendimento do que esperar com relação ao futuro. E assim, resolveu olhar a menina-mulher que na mesa ao lado tomava uma bebida de limão, um pouco espessa, um pouco recomendada a pequenos goles. E sorriu sem desviar o olhar. Sorriu sem juízo. Sorriu sem nenhum julgamento de valor. A menina-mulher não se deu conta que estava sendo observada.

O dia já estava completamente decomposto. No bar pequenininho, escurinho, sujinho, era tudo o que a sua alma pequenininha, escurinha, sujinha, precisava, além da visão da menina-mulher, assim inatingível na mesa próxima. Uma árvore de Natal minúscula foi instalada no balcão do bar só para chamar atenção da “caixinha de Natal” que não deveria ter muito sucesso, considerando os pouco frequentadores e o aspecto colegial que os mesmos transmitiam em termos de posses. Ele confirmou internamente que detestava Natal e suas desconfortáveis árvores iluminadas. Se lembrou que lhe cabia uma longa sucessão de dias na mesma sintonia inútil daquele dia. Assim como vividos tinham sido outros tantos antes desse, transcorridos na mesma afinidade de não se saber sentidos. Olhou levemente para a direita e a menina-mulher olhava a bebida e sorria…. Achou por bem e princípios não investigar os fundamentos daquele sorriso.

Já um pouco cansado das sucessivas noites vazias, abrigadas de bar em bar, ele precisava ter paciência para que o cansaço chegasse e o tragasse, como sempre, para um estado de calma perplexidade, onde vida e alegria caminhavam em direção opostas, distantes da esperança, exiladas de sentido. E nesse estágio, olhou a mulher-menina desejando mergulhar no seu corpo como um náufrago desorientado procurando a direção do porto. E nesse calmo desatino, só foi possível um sorriso, na incompreensível linguagem que os anjos, brincando, se manifestam. Foi retribuído com um outro sorriso e não me perguntem por qual sentido foi deferido.

Ficou assim, olhando a bebida forte sorvida a grossos goles do seu copo, até que lançou novamente o olhar à direita e se lembrou dos sucessivos amores, das sucessivas dores, dos frágeis sentimentos. Tudo isso cabia naquele sorriso que a menina-mulher lhe oferecia dentro da noite inútil, igual a tantas que ele  se acostumara a sua vida.

Cansado demais. Esgotado nas suas tentativas de compreender o que não lhe dizia mais respeito, chamou o garçon que cintilava no reflexo da árvore de Natal. Junto a conta, recebeu um bilhete: “Quem sabe você seja feliz numa outra vida”. E ele sorriu do fundo do seu abismo. E sorriu com o cansaço e a sinceridade da sua alma para a menina-mulher que apenas o olhava de um canto da vida que ele desconhecia….

Um comentário

  • Tania

    Que bom saber que o cansaço de um dia longo de trabalho não foi suficiente para deter o conto tão preciso e bonito. Se bem que que desiludido. Brinde com bebida espessa e de limão ao irmão viajante!

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