Sentimentos acontecem dos fatos

Temporário fim

Muitas coisas interessantes acontecem em dezembro: frisson das promoções, negociações de onde estar em duas meias-noites, o que por à mesa, uma avassaladora vontade que todos sejam felizes, e uma inevitável retrospectiva de como foi o ano. Avaliação impregnada das melhores expectativas com relação ao ano seguinte.

Bye-bye 2011. Pode ser uma taça de champanhe ou um copo de água mineral gasosa: as pequenas bolhas desaparecem após uma rápida trajetória ascendente. Esta é a imagem para este ano que chega ao final. Talvez a tenha construído observando a ciranda dos fatos que giram na melodia do tempo. Dependendo da posição que estivermos nessa roda – e porque rodamos com ela – nossa percepção dos acontecimentos se revezam entre a alegria e a tristeza. Assim foi e certamente continuará sendo até que nos sejam apresentadas outras perspectivas.

Desconfiei das alegrias com as mesmas dúvidas que me trouxeram as tristezas. Não contabilizei qual dos lados foi o vencedor porque no exercício da suspeição aceitei todas as posições como temporárias, mesmo significando muito para a validade circunstancial de cada momento. Compartilhei algumas resoluções, pensamentos, atitudes. Me esquivei de algumas resoluções, pensamentos, atitudes. Falei pouco e tentei ouvir ao máximo. Errei e acertei experimentando evitar culpas e vaidades, que nem sempre foram banidas.

As alegrias não foram poucas não. As tristezas ficaram num patamar baixo e estão em processo de purificação até se converterem em lições aprendidas. As alegrias vieram dos amigos e da família: viagens, mudanças, casamento, retorno à escola, visitas, cumplicidade em manifestação social, reencontros de “velhos” amigos, manutenção dos “atuais” amigos, trocas de gentilezas, intercâmbio de espantos e de indignações, encontros que de ocasionais foram ficando assíduos.

A natureza se manifestou no meu quintal: deu praga em um dos coqueiros, mas o outro compensou com o surgimento dos primeiros frutos. Também primeiros foram os frutos do pé de tangerina que após anos alternando lampejos de expectativas e de desistências, hoje conto quatorze tangerinas, ainda tenras, agarradas a quem lhes permite crescer dia a dia, discretamente. Além desses exemplos, os demais me possibilitaram colher do tempo a métrica das diferentes safras. Algumas árvores foram de uma generosidade enorme, outras se mantiveram retraídas. E sempre tem o intercâmbio de colheitas entre vizinhos. Estes são os momentos especiais – tanto para quem dá quanto para quem recebe – porque há sempre um emocionado reconhecimento da força da natureza quando se pode distribuir o que foi cultivado por incansáveis meses.

2011 foi um ano sem muita aceleração metabólica. Meus quatro companheiros de vida, assim como eu, tivemos que gerenciar alguns limites físicos que nos distinguem com uma espécie de serenidade – mas também pode ser interpretado como o efeito de progressivas limitações. Isto porque se tornou mais conveniente andar a correr, sussurrar a gritar, empurrar a puxar… Passei a saborear um leve sorriso observando outras pessoas executando tarefas que me eram tão banais, mas agora são inimagináveis para a minha pessoa. Olhando por outra ótica, posso dizer que 2011 me trouxe certo conforto, já que poupada das intensas exigências físicas.  Não posso ter certeza com relação aos cães, mas nas vezes que viram a cabeça de um lado para outro olhando na minha direção, eu lhes faço um afago e mudo o foco. Com isto ganhamos mais tempo de nos observarmos e afinarmos a comunicação. Não temos o que reclamar. Salvo uma dor aqui, uma ferida ali, um arranhão acolá, soubemos equacionar uma convivência pacífica, quase divinatória, das nossas diferentes personalidades e espécies.

Foram poucos os livros, mas todos fascinantes. Os filmes tiveram singular importância até porque foram mais discutidos, analisados, percebidos por diversos ângulos. Os jornais não me trouxeram nada de bom, devo confessar. Acompanhei escândalos, desastres, crimes de toda sorte, disputas insanas por poder, impunidades, jogos políticos vergonhosos. Se os jornais podem ser considerados o retrato da sociedade a que pertencemos, certamente passamos da hora de nos posicionarmos – isto se a conivência não nos imobilizar.

Foi um ano que me permitiu ser íntima de mim. Entre outros significados, também implica olhar a minha volta e poder observar tantas coisas desnecessárias que ganharam importância por uma distorção do prazer – ou por uma falsa percepção de mérito. Retomei as atividades culinárias e me surpreendi com a popularidade alcançada pelo meu bolo de chocolate bem como pelas empadinhas. Inventei alguns desastres que tiveram generosa indulgência e estímulo para tentar de forma diferente. Passei em revista as tranqueiras acumuladas por muitos anos e fui me desfazendo – ainda continuo – de grande parte de coisas cujos significados permanecerão sem a necessidade de provas materiais. Com isto vou ganhando mais espaço na vida e com a alma mais disponível para novos significados.

Ficaram pendências. Sobraram alguns assuntos por concluir. Incomodam, mas não chegam a sangrar, inflamar ou doer. Coçam e provocam irritações. E o mais curioso – ou suspeito – é que não são assuntos difíceis de serem finalizados. Não concluí-los talvez seja apenas um indicador de que se faz necessário esmiuçar alguns ângulos do contexto para que a conclusão seja, efetivamente, um fim sem qualquer possibilidade de ressurreições indesejáveis.

2011 pode sugerir, à primeira vista, um quê de insosso pessoal: sem nenhum evento surpreendente, sem nenhuma tragédia, sem nenhuma arrebatadora alegria. Não se enganem caso vocês tendam a avaliar desta maneira o ano que vocês viveram. Já dizia o poeta: “O mar tem mais perigo não quando é tempestade, mas quando é calmaria”. Certamente 2011 foi um ano preparatório, foi um ano para exercitar a atenção, para medir possibilidades. Afinal, dizem que em 2012 se dará o fim do mundo. Estou confiante e entusiasmada com essa possibilidade. E para que haja um início, com certeza não serei eu a repetir histórias detonadas. Portanto, foi um ano em que me preparei para o desconhecido e, naturalmente, me desprender de velhos hábitos é o principal instrumento para encarar o que ainda não figura no rol dos admissíveis.

Seria impossível, na sutil efervescência que foi 2011, não mencionar o quanto foi importante recebê-los nesta sala de visitas virtual. Tenham certeza que é aqui, neste espaço, que a melhor versão de mim lhes é oferecida. Foi muito bom tê-los perto, melhor quando passam por aqui e deixam um “olá”, mas não menos importante as discussões que também são promovidas nos bastidores. Obrigada a todos e desejo para vocês um 2012 aborrecido por só caber alegrias e realizações. Um tédio luxuoso de amor e compreensão que se transforme num tsunami interminável de paz.

Meu carinho.

6 Comentários

  • Tania

    Que texto mais majestoso, querida. Amei cada parágrafo.
    Sorte a nossa poder contar com esse “refúgio” na rede. Um cantinho de luz e serenidade na correria do dia a dia.
    Obrigada.
    Esteja onde estiver, meu irmãozinho deu baixa na cobrança do resumo do ano.
    Beijo

  • Jandiara

    E tem mesmo. Procuração de plenos poderes, com validade indeterminada.
    Obrigada pelo brinde. Não o de champanhe ou de água mineral, mas pelo belo texto. Um ano sem maiores palpitações, mas repleto de resgates. Beijos carinhosos

  • Vera Menezes

    Amiga, tomara que você possa fazer uso dessa procuração por muitos anos. Mesmo porque, quando a procuração não tiver efeito sobre mim, não tenha dúvida que estarei lhe entregando mais uma procuração para que os finais de ano nunca deixem de ser reverenciados…. Bjs.

  • Kelly

    Sinto-me envolvida pela mágica da casualidade, me perguntando qual sincronia me traz a este sítio, e por que me deixo tão envolvida – como no texto do tempo – já que meus medos e angústias parecem aumentar com tais visões. Aí lembro a estranha oportunidade de me embebedar diante de ti, e de maneira escrota, vomitar toda uma vidinha de vítima masoquista, e escutar algo tão simples da tua boca sábia: para que abrir um leque desses? Foco tem que focar, afinal do que vale saber teorizar ou fantasiar dessa maneira, se o que vale é o daqui em diante e não somente ficar divagando. Você Vera fez parte de um grande salto no meu caminhar, que de tão grande ele acaba há pouco de se tornar o menor, pois, se faz necessário deixar as novidades no seu devido tamanho e proporção, afinal é tão desagradável o esvaziar do desejo, então, o jeitinho é alimentar o talvez desejo do não desejo.
    Obrigada por tudo e por nada Vera e que venham mais e mais dias. Beijos.

  • Vera Menezes

    Kelly, sou eu quem aprende com você. Não tenha dúvida sobre isso. Quem sabe em fevereiro a gente não ensina à atendente como fazer caipivodka em copo descartável…. rs Que venham mesmo muitos outros dias com seus momentos mágicos. Bjs.

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