Sentimentos acontecem dos fatos

Sobre o tempo, mais uma vez

Salvo melhor contabilidade, foram quatro anos que o Correio Braziliense publicou crônicas de Elisa Lucinda aos sábados. Neste sábado, 17 de dezembro, foi a última impressa. Na verdade a última foi dividida em dois tempos: no sábado dia 10, a primeira parte e no seguinte a conclusão da crônica que por título foi “Carta ao tempo”.

Confesso que na primeira parte não me dei conta que se tratava de uma preparação para que os leitores recebessem a prova irrefutável de que o tempo passa e cada um de nós segue a direção que ele nos indica.

Da crônica, extremamente delicada e amorosa, transcrevo um parágrafo, controlando a vontade de colocar aqui, na íntegra, a valiosa respiração de sensibilidade que nos foi oferecida:

“…Não dá para voltar atrás e fazer diferente, é verdade. Mas se pode olhar para o vivido de uma nova maneira. Essa é outra carta boa tua, meu bem. Sem a qual não haveria o perdão e de nada valeria o saber novo se este não pudesse dar conta de nos esclarecer os acontecidos, ampliá-los dentro do seu território como quem estica um grande tecido. Pois a compreensão posterior nos põe em boa situação de observadores. Vejo, pela distância do tempo, os vários lados do tabuleiro de uma experiência que, enquanto eu nela vivia, não via suas dimensões e limites por falta de visão. Com o tempo, mudam os parâmetros. Tua passagem, Tempo, muda de posição as referências como mudam as pedras durante a idade de um rio.”

Surge uma frase que constantemente um amigo me dirige: “O importante é trilhar o caminho!”. E quando se fala em caminho o tempo se apresenta querendo interferir na topografia, instalando curvas e definindo retas. E vamos em frente, embora algumas vezes o que mais desejamos é uma trégua na velocidade do caminho. Poder sentar à sombra e examinar o “tabuleiro” como quem troca os sapatos para deixar pegadas mais definidas nos reciclados caminhos.

Ao ler a última crônica da Elisa Lucinda, invariavelmente bem escrita, e por ela se referir ao tempo com uma vitalidade inesgotável de entusiasmo e esperança que permitem a disponibilidade para o novo, eu me percebi numa posição diferente, talvez na direção contrária dessa mesma estrada. Examinando o conjunto de peças do grande “tabuleiro”, percebo que ao longo da estrada substituímos peças, ilustramos alguns enredos, aprimoramos condições, ganhamos fôlego, tentamos aprimorar o condicionamento físico, e a estrada nunca termina. Ou seja, andamos, colecionamos histórias, andamos, passamos a limpo algumas anotações, andamos, improvisamos bons dribles, continuamos andando, e nunca conseguiremos chegar à justificativa da nossa existência. Aquele lugar onde todos os momentos, todos os passos, todos os sentimentos, todos os figurantes e todas as circunstâncias deveriam se apresentar compondo um grande painel (“o tempo de corpo inteiro, não em partes”) onde pudéssemos tocar o sentido de estarmos vivos.

“O importante é trilhar o caminho!”, ouço meu amigo mais uma vez me advertindo. Na verdade não temos outra opção. Não temos a chance de uma escolha menos ou mais importante: trilhar o caminho é condição única para existirmos na desconhecida dimensão do espaço em que vivemos. O tempo se esgota para nós, mas o caminho continuará lá com a mesma disponibilidade de sempre, impassível, assistindo nosso equívoco em acreditar que alcançaremos o final do caminho.

Privados do conjunto, nos cabe o sabor de cada elemento, fatias finas ou grossas dispostas na vitrine dos momentos, renovada pelos fatos que avançam conosco diferentes posições ao longo do caminho. O grande mistério é manter o ritmo, aprimorar o fôlego, fazer o melhor para que cada capítulo possa ser vivido intensamente no intervalo de tempo que lhe for dedicado. É inútil imaginar que teremos acesso ao livro que reúne as muitas histórias que vivemos, e mais inútil ainda supor que podermos interpretar ou avaliar o que um dia figurará na estante do tempo coberto pela poeira do esquecimento.

As crônicas de Elisa Lucinda não serão atiradas por sobre o meu portão, nem eu irei com muita ansiedade recolher no quintal o jornal de todos os sábados. Mas os momentos se desdobram em novos momentos e fazê-los mais agradáveis dependem mais de nós que propriamente da sorte. As crônicas da Elisa Lucinda continuarão a ser apreciadas por outro meio: A Lira que Alucinda (a última crônica para o Correio Braziliense, certamente estará na íntegra).

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