Sentimentos acontecem dos fatos

Para aqueles por quem nenhum sino tocará

Praia do Campeche
Praia do Campeche

Largado ao seu próprio destino, conhecia as perdas e ganhos de se saber sozinho. Olhou-se no espelho e teve alguma dificuldade em reconhecer-se. Talvez se aparasse o cabelo conseguisse ficar mais próximo dele mesmo. Ele havia amanhecido diferente naquele dia. Ou se preferirem: aquele dia havia amanhecido e a única diferença estava na maneira como se percebia. Talvez não bastasse simplesmente cortar o cabelo Talvez não bastasse procurar a si mesmo, pois queria mesmo abraçar essa íntima novidade.

Então seria o tempo de fazer algumas opções, já sabia. Um exercício sereno e sem culpa que começava por abrir mão de tudo que não queria para si. Mesmo que isso significasse não ter a menor idéia do que realmente desejava. Mas saber o que queria sempre foi matéria rara, quase um luxo, que sempre aconteceu quanto mais distraído estivesse. Se colocava em algumas situações, media o grau de conforto que a situação lhe proporcionava e ficava ali como coisa que fosse ele que a tivesse escolhido, como coisa que fosse ele que tivesse percorrido cuidadosamente todos os passos para estar ali. Mas não era nada disso: a vida sempre lhe pareceu uma sucessão imprevisível de pequenos acidentes que se ofereciam para o experimento de se perceber mais ou menos confortável em cada pequena surpresa. Ele era, portanto, uma espécie de administrador de todos os imponderáveis  que significavam estar vivo.

Olhou-se no espelho. Desta vez não queria mais se reconhecer, bastava que fosse gentil e receptivo para aquele que dele mesmo surgia com a suavidade que sempre antecede os mais violentos maremotos. Conseguiu perceber que estava pronto para mais uma reciclagem da própria vida. E era a calma que lhe confirmava nenhuma possibilidade de reverter um processo que intimamente se estabelecera em seu definitivo. E assim, sorriu para o espelho com quem dá boas vindas: “Pode entrar, a casa é sua”.

E ali estava ele, completamente disponível à intransigente necessidade de dizer “não”, “isso eu não quero”. Completamente convencido da necessidade de respeitar a paz que dentro dele se instalara, quando silenciosamente havia pronunciado, quase soletrando: “não quero mais isso para mim”. A partir daí, uma tranquilidade, um bem-estar, passaram a fazer parte da confirmação de que não seria possível adiar o que já se manifestava. Respirou fundo e se desejou sorte no caminho.

Aprendeu, com muita simplicidade, que a vida é uma solitária despedida, sempre constante, quando se imagina ter apreendido a noção de si mesmo.

Assim, abriu-se à possibilidade de novas descobertas…..

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