Sentimentos acontecem dos fatos

Homem de interesses próprios

Não suportava andar de Metrô. Mas tentava se acalmar porque andar de ônibus seria ainda pior. Às vezes pegava o Metrô na direção contrária ao destino, só para voltar sentado e ficar menos exposto ao contato físico das outras pessoas. Não gostava que estranhos encostassem nele, nem que qualquer pessoa o cutucasse solicitando atenção. Havia mesmo um quê de carrancudo que não tentava disfarçar: vivia bem com os olhares indiretos que lançava em quase tudo e com o silêncio que para muitos era freqüentemente inconveniente.

Concordava com a afirmativa do tal político sobre o espaço do cidadão comum nas estruturas políticas: não participava das questões do estado e desconhecia por completo as complicações lá no nível federal. O cidadão dá conta com certa relatividade do município onde ele vive e nada mais além. Alguns não esgarçam aventuras para além do bairro onde moram. Acreditava tanto que as coisas importantes cabiam no que se podia controlar que entendeu que a sua vida só lhe dizia respeito e a mais ninguém.

Construiu-se solitário. Poucas palavras. Olhares oblíquos para cercanias que não lhe diziam respeito. Foi magro de sentimentos. Estratégico nos traços, jamais curvos. Sólido em silencio e intenções. Não despertava simpatia nem repulsa. Despachava educadamente ocasionais interesses que pudesse despertar em alguém. Flutuava nas relações que nunca se definiam em relacionamentos. A vida era um descarte das ocorrências que não lhe interessavam. Foram anos nessa prodigiosa arquitetura do bastar-se.

Conseguiu da vida tudo a que se propôs obter. Era discreto em termos de ganância e respeitoso nos saltos sempre em conformidade com o alcance de suas pernas. Envelheceu agarrado aos seus princípios e com uma enorme habilidade em se desvencilhar das circunstâncias indesejáveis da vida. Ou melhor, não dava importância aos acontecimentos que insistiam afrontar sua retilínea administração dos fatos visando determinados objetivos.

Nunca chorou nem foi expansivo nas manifestações de alegria. Exímio nos cálculos, foi bem sucedido na profissão que lhe permitia intima convivência com os números. Chegou mesmo a se aposentar com certa tranqüilidade tal qual havia previsto. Pagava todos os impostos e sonegava aqueles que lhe garantiam a impunidade. Quitava os débitos que ele afirmava ser o valor que lhe custava viver. Viver cabia no seu orçamento muito bem calculado com o rigor lógico da praticidade comungada com a necessidade.

Gerenciou a sua vida nos detalhes requintados dignos de um psicótico, mas havia negligenciado a sua morte: foi encontrado pelo estado de putrefação avançada e, segundo os legistas, vítima de um ataque cardíaco fulminante. Negou-se em vida às surpresas místicas que interagem com as coincidências, e só porque viver é negação de evidências, debochou-lhe a morte súbita numa surpreendente gargalhada do destino. Arrogante frente ao imprevisto do momento, não se submeteu ao fato: preferiu abandonar a vida a sobreviver de improviso.

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