Sentimentos acontecem dos fatos

Parte 1 – A Descoberta do Silêncio

Ele sabia que estava ficando mais silencioso, mas não era o silêncio que o preocupava, e sim os pensamentos descoloridos, que com frequência traduziam as suas percepções do mundo. Riu ao tentar resumir o que se passava com ele: “eu diria que me falta a centelha divina para entender esses dias que passam…” Mas ele sabia lidar com a esperança, apenas o silêncio acontecera para ele. E o silêncio lhe surpreendeu na intensidade com que trouxe algumas mudanças.

Aos poucos foi lhe bastando, com inteira naturalidade, a companhia exclusiva dos cachorros que o seguiam a cada passo; o despertar dos pequenos pardais que se instalaram no telhado e retribuíam a hospedagem com estridência, todas as manhãs; o olhar minucioso, investigativo, nas poucas árvores, que quando não adoeciam se faziam vaidosas: oferecidas em frutos.

Ao tempo que o amanhecer lhe permitia certa energia, um ritmo mais acelerado nas providências de sobreviver, doía-lhe, de um incomodo sem nome, assistir o pôr do sol escorrendo palidamente por trás da linha do horizonte. Nessas horas o silêncio era maior que ele e parecia cobrir o mundo… Sempre foram silenciosas as aparições das estrelas e contemplá-las exigia aguda introspecção.

Adorava os dias que pertenciam ao sol, mas guardava algumas restrições quando inadvertidamente as manhãs não conseguiam se desvencilhar da noite e traziam consigo o cinza, como um desbotamento do negro, e nuvens densas, como uma deformação das estrelas. As manhãs estropiadas o deixavam intenso no seu silêncio. Nessas ocasiões se mantinha sentado horas a fio na poltrona da varanda, encarando o chão enquanto os pensamentos brincavam num plano restrito, para onde se deslocam os pensamentos quando querem brincar…

Além do isolamento recomendado pelo silêncio que dele se apossara, vieram junto alguns pensamentos extremamente críticos e a percepção de que ao caber no seu silêncio tanto a mudez das lágrimas quanto a afonia dos risos, era o envelhecimento que aos poucos o abraçava. E esse abraço o impedia de comprovar a mesma resistência física para algumas atividades que sem nenhum esforço ele executava alguns anos atrás. A respiração faltava quando a aventura de ir ao encontro de seus desejos sucumbia na impossibilidade de sua resistência. É preciso ser muito cuidadoso nessas horas para não transformar o silencio em amargura…

Tudo isso acontecia de forma muito discreta, com uma suavidade habilidosamente trançada na passagem dos dias, para que o impacto não fosse demasiado. E de porção em porção ele ia se descobrindo alguém diferente daquele a que se habituara. Gostava, ao menos, de um dos efeitos que o silêncio lhe permitira: se desvencilhou do sentido de urgência que havia impregnado a sua vida por muitos anos. Agora ele lidava com o tempo das coisas, ao seu tempo. Com isto a ansiedade de viver lhe parecia ter viajado da ação para a observação. Estranha forma de se perceber.

Tudo ficou silenciosamente mais grave no dia em que foi ao cartório e a atendente, jovem muito simpática, tentava adivinhar quais os propósitos dele ali estar antes de lhe entregar a senha de atendimento. Sentou-se com um suspiro e consultou na tela – que fazia um irritante barulho a cada chamada – a distância que estava de um atendimento. Foi aí que se deu conta que a jovem e simpática atendente lhe entregou, com muita convicção, uma senha preferencial. Sorriu, silenciosamente sorriu… De preferência manter sempre o sorriso…

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