Sentimentos acontecem dos fatos

Parte 2 – A Aceitação do Silêncio

foto: Dimitri Caceaune

Ele não podia considerar o silêncio um fracasso das suas palavras. Mesmo porque pensar consistia numa estrutura de especiais fundamentos por meio da qual as palavras se atraiam culminando em graves sentimentos.

Considerava-se culturalmente parvo, socialmente inadequado, fisicamente incompatível… Aceitou com naturalidade todas essas distâncias… De próximo, apenas a frequência com que os pensamentos chegavam até ele no silêncio da sua vida. Descobrir e reaprender-se no que o tempo lhe oferecera passou a ocupar espaços e gestos confortavelmente admitidos. Não lhe cabia questionar, rebelar, rejeitar… A vida provava diferentes compassos e incluí-los no roteiro de cada momento foi lição das mais definitivas que antecederam o silêncio dos dias.

Aos poucos foi se afastando do convívio das pessoas. Na medida em que os pequenos sustos melhor o identificavam como “desigual”, ele foi deixando para trás o impulso de sempre buscar o semelhante em individualidades das mais variadas. Escapara silenciosamente dessa abstração da espécie e direcionara a sua atenção para outras disponibilidades naturais.

Aprendera a dar bom dia para os pequenos botões de rosa que eram desenhados na friagem da noite para surgirem discretamente nas manhãs observadas. Também aprendera a ceifar galhos infestados de larvas para impedir que as pragas dizimassem as árvores frutíferas que o abasteciam na saborosa conveniência das estações. A companhia dos cachorros lhe ensinara que olhos e tato permitem linguagens de acesso quando o não convencional passa a ser o roteiro de descobertas íntimas.

Dera para fixar o olhar no pedaço de chão que antecedia os seus passos. Examinava o mato e queria decifrar que espécie de vingança era travada com a grama, pois surgiam aquelas florzinhas amarelas tão indesejáveis quanto singelas, que se alastravam, insistindo em restituir o originalmente rústico que terras não desbravadas ostentam com aparente orgulho. Andava com as mãos nos bolsos e nessas horas seus pensamentos percorriam caminhos próprios, permitindo que novas energias se manifestassem – quando não alargavam percepções oprimiam os sentidos. Ou então, como ele acreditava: seus pensamentos o levavam para tão longe, transcendendo os limites, transpondo possibilidades, que seu corpo resistia como se fosse possível embarreirar o desconhecido. Às vezes era o joelho que doía obrigando o encontro de caminhos mais firmes; outras vezes era o peito, invadido por uma angústia sem tamanho, que o deixava perdido na imensidão do existir. As mãos nos bolsos apenas confirmavam, com certa humildade talhada na impotência, a inutilidade de se agarrar em quaisquer pedaços que a emoção oferecia. A vida permaneceria insondável e pouco exigente.

Sem exigir nada, a vida se amontoava nos corredores silenciosos percorridos pelos pensamentos daquele homem. E ele atravessava os dias agradecendo as surpresas que a vida lhe entregava. Quando adoecia, agradecia os punhados das ervas colhidas no quintal que lhe davam suporte para alguns males do tempo. Quando o sol brilhava, agradecido, ele juntava as folhas para cobrir os pés das árvores preservando por mais tempo a umidade das raízes. Quando vinham notícias seladas dentro de envelopes, ou nas vozes que o telefone trazia, com ou sem vento, ele esmiuçava as informações até ajeitar o foco. Ficava em silêncio trabalhando aquelas notícias, desvendando os segredos, felizes ou tristes, alardeados nas cores das primeiras impressões. Agradecia quando arrancava a estridência dos fatos e conseguia fazê-los constar na suave relevância de mérito tão comum no existir dos dias.

O silêncio, gradativamente instalado, foi uma atitude recompensada em si mesma. Um valioso salvo-conduto cujo privilégio o isentava da fraude com que a civilização se servia das palavras para perpetuar os abismos ressaltados pela impossibilidade de comunicação. Acompanhou os incontáveis efeitos pirotécnicos ilustrativos do quanto uma sociedade se deteriora nos sistemáticos tropeços em nome do sucesso: o amor é capaz de matar; a política negocia interesses pessoais; o progresso fará com que uma árvore seja a raridade do próximo século; individualidades se esforçam pela vã supremacia de um equivocado poder… O silêncio para aquele homem não era uma tentativa de reparação. Não conseguia vislumbrar possibilidade de consertar o que já não mais existia. O tempo exigia que a ampulheta fosse virada e que silenciosamente os grãos da história desenhassem um diferente princípio.

Nem mesmo um suspiro abafado na intenção do equilíbrio: o que se vê é o silêncio esculpindo o futuro por entre os filetes de esperança preservados em algumas palavras.

Um comentário

  • Tania

    Muitas vzs precisamos nos calar, justamente para poder nos ouvir. A fase de silêncio, eu penso, é um poderoso sabático.
    “O inverno não falha em se tornar primavera” (Nitiren Daishonin).
    Beijo

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